Bruno Barreto Cintra
DOI: 10.5935/2595-170X.20260003
A lesão por queimadura continua a ser um desafio de saúde pública global, demandando atenção especializada e abordagens multidisciplinares.
A incidência e a mortalidade por queimaduras variam drasticamente em todo o mundo, com um impacto desproporcional em países de baixa e média renda (PBMRs)1,2. Enquanto centros de queimados em países de alta renda (PARs) relatam taxas de mortalidade em torno de 3%, estudos em PBMRs podem indicar índices tão elevados quanto 27% a 55%3. Essas disparidades refletem não apenas a gravidade das lesões, mas também a disponibilidade de recursos e a qualidade dos sistemas de saúde4.
As taxas de mortalidade por queimaduras apresentam uma ampla variação globalmente, refletindo as complexidades dos sistemas de saúde, fatores socioeconômicos e a gravidade das lesões. Enquanto centros especializados em países com infraestrutura avançada, como o Centro de Queimados de Linköping, na Alemanha, demonstraram uma notável redução da mortalidade de 7,5% (2000-2007) para 3,4% (2008-2015)1, e a média nacional no Brasil foi de 2,78% entre 2016 e 20202, outros estudos revelam taxas mais elevadas, o que nos mostra que precisamos de dados mais claros e objetivos sobre queimaduras. A Malásia registrou uma mortalidade de 11,8%3, o Uruguai 19,9%4, e uma coorte de pacientes queimados sob ventilação mecânica em Portugal apresentou 29,8% de mortalidade intra-hospitalar5.
A mortalidade por queimaduras é multifatorial, influenciada por características do paciente, da lesão e do sistema de saúde.
1. Características da Lesão: A extensão da superfície corporal queimada (SCQ) e a profundidade da queimadura permanecem como os principais determinantes prognósticos3-5. Quanto maior a SCQ, maior o risco de mortalidade, um achado consistente em diversas coortes3-5.
A lesão inalatória é uma complicação grave e frequente, que impacta a mortalidade e o tempo de internação4,6. Um estudo chinês, analisando pacientes com lesão inalatória e queimaduras com SCQ < 30%, identificou que a gravidade da lesão inalatória e a necessidade de ventilação mecânica são fatores de risco independentes para o tempo de permanência hospitalar e na UTI, e para infecções respiratórias6. Este estudo sugeriu que a traqueostomia profilática em pacientes com lesões inalatórias moderadas a graves pode ter um valor potencial na redução das infecções do trato respiratório6.
2. Características do Paciente: Extremos de idade são reconhecidos como grupos de alto risco. Crianças pequenas (<1 ano a 4 anos) apresentam as maiores taxas de hospitalização, enquanto idosos (>80 anos) exibem as taxas de mortalidade mais elevadas, chegando a ser 16 vezes maior do que em pacientes com mais de 1 ano de idade5.
3. Complicações e Comorbidades: A lesão renal aguda (LRA) é uma complicação frequente e grave após queimaduras térmicas, ocorrendo em 58% dos pacientes em uma unidade de queimados intensivos, e está fortemente associada a um aumento da mortalidade hospitalar4.
Infecções, especialmente as respiratórias, são eventos adversos comuns. O estudo chinês destacou a detecção de Gram-negativos como Acinetobacter baumannii, Pseudomonas aeruginosa e Klebsiella pneumoniae como os patógenos predominantes em secreções respiratórias, impactando negativamente a duração da ventilação mecânica e o tempo de internação6.
4. Fatores Relacionados ao Sistema de Saúde e Contexto: A disponibilidade e a qualidade da infraestrutura de saúde são críticas3. Em PBMRs, o desequilíbrio entre o número limitado de centros de queimados e a alta demanda por casos graves torna o manejo complexo3. Em um centro na África do Sul, a não referência de pacientes de outros hospitais para a unidade especializada foi um fator independentemente associado ao aumento da mortalidade hospitalar, indicando a importância de sistemas de referência eficazes3.
A sazonalidade também desempenha um papel, como demonstrado em um estudo brasileiro, que identificou um aumento da mortalidade por queimaduras em períodos chuvosos, com picos em janeiro e fevereiro, e padrões distintos para queimaduras térmicas e elétricas1.
A experiência do Centro de Queimados de Linköping na Alemanha demonstra que a melhoria contínua da qualidade do cuidado, por meio de aprimoramento do conhecimento da equipe, protocolos eficientes e uma abordagem multidisciplinar focada na segurança do paciente, pode reduzir significativamente a mortalidade sem necessariamente aumentar o uso diário de recursos1.
Atrasos na admissão a centros especializados podem impactar negativamente o prognóstico3. Na Malásia, pacientes transferidos de unidades periféricas apresentaram maior tempo entre a lesão e a admissão na Unidade de Terapia Intensiva para Queimados (BICU). Embora o estudo não tenha encontrado uma significância estatística direta para a mortalidade neste caso específico, é um fator reconhecido7.
Este panorama reforça a necessidade de uma abordagem estratégica e adaptada para reduzir a mortalidade por queimaduras. Para nós, especialistas, isso implica em:
Melhorar a Estratificação de Risco: Utilizar ferramentas como o Abbreviated Burn Severity Index (ABSI), que se mostrou preciso mesmo em contextos de recursos limitados, para identificar precocemente pacientes com pior prognóstico e guiar decisões terapêuticas e de cuidados paliativos3.
Desenvolver Estratégias de Prevenção Focadas: Criar programas de prevenção culturalmente sensíveis que considerem as disparidades de gênero, idade, etnia e as particularidades sazonais e ocupacionais de cada região, especialmente em relação às queimaduras elétricas e o uso de combustíveis para aquecimento intradomiciliar1,5.
Fortalecer Sistemas de Referência: Otimizar a transferência de pacientes para centros especializados, garantindo atendimento oportuno e minimizando a deterioração da condição clínica antes da admissão3.
Aprimorar o Manejo de Complicações: Implementar protocolos rigorosos para a prevenção e tratamento de complicações como LRA e infecções respiratórias, que são fatores cruciais de mortalidade4,6.
Investir em Pesquisa e Coleta de Dados: Padronizar as definições e a coleta de dados globalmente para permitir comparações mais precisas e identificar lacunas no conhecimento.
A jornada para reduzir a mortalidade por queimaduras é contínua e complexa. Conhecimentos, educação e troca de experiências entre países de todo o globo é o que pode nos fazer avançar em todos os aspectos. Estudos epidemiológicos representativos são fundamentais neste processo.
REFERÊNCIAS
1. Fernandes SES, Lopes DC, Lopes ET, Amorim FF, Adorno J, Vana LPM, et al. Efeito da sazonalidade na mortalidade por queimaduras no Brasil: estudo de base populacional. Cienc Saude Coletiva. 2025;30(10):e13822025. DOI: 10.1590/1413-812320253010.13822025
2. World Health Organization (WHO). Burns [Internet]. 2023 [cited 2024 Feb 21]. Available from: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/burns.
3. Boissin C, Wallis LA, Kleintjes W, Laflamme L. Admission factors associated with the in-hospital mortality of burns patients in resource-constrained settings: A two-year retrospective investigation in a South African adult burns centre. Burns. 2019;45(7):1462-70. DOI: 10.1016/j.burns.2019.03.005
4. Clark AT, Li X, Kulangara R, Adams-Huet B, Huen SC, Madni TD, et al. Acute Kidney Injury After Burn: A Cohort Study From the Parkland Burn Intensive Care Unit. J Burn Care Res. 2019;40(1):72-8. DOI: 10.1093/jbcr/iry046
5. Kieling L, Konzen AT, Bovo LA, Alberti AM, Csani EH, Bastos KC, et al. Queimaduras no Brasil: Um Estudo Sobre o Perfil Epidemiológico e Desfechos no Sistema Único de Saúde. In: Investigação Científica na Saúde: Da Teoria à Prática. São José dos Pinhais: Impacto Científico Editora; 2025. DOI: https://doi.org/10.56238/edimpacto2025.028-008
6. Jiang Y, Wang KA, Wang BL, Hu LY, Zhu BH, Wu GS, et al. [Epidemiological characteristics and outcome analysis of 266 patients with inhalation injuries combined with total burn area less than 30% total body surface area]. Zhonghua Shao Shang Za Zhi. 2021;37(4):340-9. Chinese. DOI: 10.3760/cma.j.cn501120-20200229-00106
7. Lip HTC, Idris MAM, Imran FH, Azmah TN, Huei TJ, Thomas M. Predictors of mortality and validation of burn mortality prognostic scores in a Malaysian burns intensive care unit. BMC Emerg Med. 2019;19(1):66. DOI: 10.1186/s12873-019-0284-8