Francieli Ferreira de Andrade Batista1; Rosangela Aparecida Pimenta1; Elisangela Flauzino Zampar1; Larissa Ribeiro de Andrade1; Maria do Carmo Haddad1; Adriana Valongo Zani1; Maria Elena Echevarría-Guanilo2; Raquel Pan3
DOI: 10.5935/2595-170X.20260004
RESUMO
OBJETIVO: Validar a versão brasileira do Brisbane Burn Impact Scar Profile (BBSIP-BR) para pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos.
MÉTODO: Estudo metodológico desenvolvido entre maio de 2020 a junho de 2024, em dois Centros de Tratamento de Queimados (CTQ), sendo um em Londrina-PR e, outro, em Florianópolis-SC. A amostra foi composta por 152 pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos com cicatrizes de queimaduras, destes, 82 foram medidas de correlação, e 51 medidas de repetição para o reteste, que foi aplicado de 10 a 15 dias após a primeira entrevista. As propriedades psicométricas do BBSIP-BR foram avaliadas quanto: a confiabilidade, utilizando-se o alfa de Cronbach e alfa de McDonald; a estabilidade do reteste, calculando-se o Coeficiente de Correlação Intraclasse (CCI). Para análise de medidas correlacionais, aplicou-se o coeficiente de Spearman.
RESULTADOS: O BBSIP-BR apresentou consistência interna dos itens com ?=0,960 e alfa=0,955. O tamanho amostral foi considerado adequado e a validade de critério foi apoiada com base nas correlações com o Patient and Observer Scar Assessment Scale (POSAS) e o Pediatric Quality of Life Inventory (PedsQL).
CONCLUSÕES: O BBSIP-BR demonstrou evidências de validade e confiabilidade para medir a qualidade de vida de crianças menores de 8 anos de idade na perspectiva dos seus pais/cuidadores.
Palavras-chave: Queimaduras. Cicatrização. Criança. Qualidade de Vida. Estudo de Validação.
ABSTRACT
OBJECTIVE: Validate the Brazilian version of the Brisbane Burn Impact Scar Profile (BBSIP-BR) for parents/caregivers of children under 8 years old.
METHODS: This methodological study was conducted between May 2020 and June 2024 in two Burn Treatment Centers (BTCs), one in Londrina-PR and the other in Florianópolis-SC. The sample consisted of 152 parents/caregivers of children under 8 years of age with burn scars; of these, 82 were correlation measures, and 51 were retest measures, which were applied 10 to 15 days after the first interview. The psychometric properties of the BBSIP-BR were evaluated regarding: reliability using Cronbach's alpha and McDonalds alpha; retest stability by calculating the Intraclass Correlation Coefficient (ICC). Spearman's correlation coefficient was applied to analyze correlational measures.
RESULTS: The BBSIP-BR showed internal consistency of items with ?=0.960 and alpha=0.955. The sample size was considered adequate and criterion validity was supported based on correlations with the Patient and Observer Scar Assessment Scale (POSAS) and Pediatric Quality of Life Inventory (PedsQL).
CONCLUSIONS: The BBSIP-BR has demonstrated evidence of validity and reliability for measuring the quality of life of children under 8 years of age from the perspective of their parents/caregivers.
Keywords: Burns. Wound Healing. Child. Quality of Life. Validation Study.
INTRODUÇÃO
As queimaduras são uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo1. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), juntamente com as mulheres adultas, as crianças são particularmente vulneráveis às queimaduras, sendo a quinta causa mais comum de lesões infantis não fatais. Além de representarem uma significativa causa de morbidade, este agravo frequentemente resulta em hospitalização prolongada, desfiguração e incapacidade, muitas vezes acompanhadas de estigma e rejeição social2.
Dada a gravidade das queimaduras pediátricas, bem como o trauma que acompanha o evento e que persiste após esta ocorrência, pode-se afirmar que o impacto na qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) das crianças é significativo. Isso ocorre porque, além do impacto físico grave, as queimaduras também afetam significativamente o bem-estar psicológico e emocional tanto da criança como de sua família3.
É fundamental na avaliação do tratamento das queimaduras considerar a QVRS. Para isso, são imprescindíveis instrumentos com propriedades de medição robustas, que possam oferecer evidências de alta qualidade para melhorar o cuidado ao paciente. Além disso, o uso de instrumentos específicos pode ser mais eficaz para avaliar a condição do paciente do que instrumentos genéricos4.
Além disso, a utilização de Medidas de Resultados Relatados pelo Paciente (PROMs) desempenha um papel crucial no suporte das decisões clínicas compartilhadas e na promoção da centralidade do paciente. Isso melhora a comunicação entre pacientes e profissionais de saúde e contribui significativamente para a qualidade do atendimento5,6. O reconhecimento crescente da importância das PROMs pelos formuladores de políticas reflete sua capacidade de influenciar futuras direções dos sistemas de saúde, como cuidados personalizados, decisões compartilhadas, e aprimoramento da qualidade, eficiência e transparência no atendimento7.
Em 2013, foi desenvolvido na Austrália o Brisbane Burn Scar Impact Profile (BBSIP), com o objetivo de avaliar a QVRS em pessoas com cicatrizes de queimaduras, em quatro versões: a) para adultos; b) para crianças e jovens de 8 a 18 anos; c) para cuidadores de crianças com 8 anos ou mais; d) para cuidadores de crianças menores de 8 anos8. Em 2021, a versão brasileira do Brisbane Burn Scar Impact Profile (BBSIP-BR) para pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos foi adaptada e traduzida para uso no Brasil e aplicada em uma amostra de 34 pais/cuidadores dessas crianças. As análises psicométricas realizadas no pré-teste demonstraram-se confiáveis e adequadas, mantendo a equivalência semântica, idiomática e cultural do instrumento, além de confirmar sua confiabilidade durante a realização do pré-teste9Aavaliação das propriedades de medida de instrumentos é útil para subsidiar a seleção de instrumentos válidos e confiáveis, de modo a assegurar a qualidade dos resultados dos estudos. Determinar quão rigorosamente os aspectos de confiabilidade e validade foram abordados em um estudo é essencial para a garantia da qualidade dos instrumentos utilizados e na implementação prática dos resultados dos estudos10,11.
Nesse sentido, este estudo teve como objetivo validar o BBSIP-BR para pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos.
MÉTODOS
Estudo do tipo metodológico de validação psicométrica de instrumento, para avaliar a validade e confiabilidade do BBSIP-BR para pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos, desenvolvido em dois Centros de Tratamento de Queimados (CTQ): um hospital universitário público localizado no norte do estado do Paraná, onde os dados foram coletados entre maio de 2020 e junho de 2024 e, o outro, em um hospital público, referência para atendimentos de crianças no estado de Santa Catarina, com dados coletados no período de maio de 2022 a fevereiro de 2024.
Foram incluídos pais de crianças menores de 8 anos com cicatrizes de queimaduras e em até 85% das lesões cicatrizadas. Os critérios de não inclusão foram de pais/cuidadores que não acompanhassem diariamente seu filho ou que apresentassem algum comprometimento cognitivo e intelectual que prejudicasse a comunicação ou a memória, podendo ser considerado um fator gerador de viés, já que o instrumento se refere a ações realizadas sempre na semana anterior.
A amostra foi composta por 152 pais ou cuidadores de crianças menores de 8 anos com cicatrizes de queimaduras, recrutados no ambulatório do CTQ durante as consultas de retorno presencial. Além disso, utilizou-se de uma lista fornecida com informações sobre as crianças da população-alvo, a partir da qual foram realizados contatos telefônicos para agendar as entrevistas, que foram conduzidas de forma online ou presencial no ambulatório. Para os pacientes atendidos no Hospital Infantil Joana de Gusmão (HIJG), foi realizado contato telefônico com base na lista de pacientes disponível, agendando entrevistas online de acordo com a disponibilidade dos participantes. Dentre as respostas de 152 pais, 82 medidas foram realizadas para correlação de validade de critério, das quais 51 participaram do reteste. Houve uma perda de 31 participantes no reteste, que foi aplicado entre 10 e 15 dias após a primeira entrevista.
Para a caracterização sociodemográfica e clínica epidemiológica, utilizou-se um questionário constando as seguintes variáveis: tipo de acidente, superfície corpórea queimada, tempo de internação, tempo de acompanhamento, tipo e tratamento das cicatrizes. Ainda foram aplicados outros dois instrumentos, sendo: o Pediatric Quality of Life Inventory (PedsQl) e o Patient and Observer Scar Assessment Scale (POSAS)12, para as correlações com as hipóteses levantadas para avaliação da validade do BBSIP-BR.
O PedsQL é empregado para avaliar a QVRS em crianças e adolescentes, tanto saudáveis quanto aqueles com condições de saúde agudas e crônicas, e foi adaptado e validado para uso no Brasil13. Neste estudo, foi utilizada a versão de relato dos pais sobre seus filhos de 2 a 4 anos e de 5 a 7 anos. O instrumento avalia cada item referente ao último mês, porém, nesta pesquisa, a instrução foi modificada para perguntar sobre cada item em relação à última semana, conforme os autores do BBSIP-BR recomendam.
A escala POSAS foi desenvolvida em 2003 para a avaliação de cicatrizes de queimaduras. Ela é composta por duas partes: uma avaliação feita pelo observador e outra pelo próprio paciente. Cada uma dessas partes contém seis itens, avaliados numericamente numa escala de um a dez. O valor dez representa a pior cicatriz ou a pior sensação imaginável. A pontuação total é obtida somando-se as pontuações de todos os seis itens. Uma pontuação baixa indica uma cicatriz próxima do estado normal da pele, enquanto uma pontuação alta indica o pior estado imaginável de uma cicatriz13.
As propriedades psicométricas do BBSIP-BR para pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos foram avaliadas quanto à validade e confiabilidade. A confiabilidade do instrumento foi verificada por meio da consistência interna utilizando o coeficiente alfa de Cronbach e o coeficiente alfa de McDonald, sendo considerado aceitável um valor ≥0,7014,15; os dois testes tiveram o mesmo objetivo: verificar a confiabilidade de um instrumento16. A estabilidade foi avaliada por meio de um reteste, calculando o Coeficiente de Correlação Intraclasse (CCI). A reprodutibilidade foi investigada usando o CCI, em que uma confiabilidade excelente foi definida como CCI>0,90, boa confiabilidade entre 0,75 e ≤0,90, confiabilidade moderada entre 0,5 e 0,75, e baixa confiabilidade <0,5. O nível de significância adotado foi de 95%17.
Utilizou-se a estatística descritiva reportadas em frequências absolutas e relativas para apresentação das variáveis. Para análise de medidas correlacionais, aplicou-se o coeficiente de correlação de Spearman. Realizou-se a correlação entre os domínios do instrumento BBSIP-BR e a escala POSAS e, a PedsQl, como padrão ouro para a validade de critério17,18.
As correlações hipotéticas entre as pontuações dos itens BBSIP-BR e os itens correspondentes da escala POSAS-paciente e PedsQL foram definidas para validar o construto. Seguindo a hipótese proposta pelos autores do instrumento original, espera-se encontrar coeficientes de correlação moderados a altos (r>0,3), que seriam superiores às correlações com outros itens entre variáveis que medem os mesmos construtos. Por exemplo, isso inclui a relação entre o item de rigidez do BBSIP e os itens de dor e rigidez da POSAS; os itens do BBSIP que abordam cor espessa, áspera e diferente em comparação com os itens de espessura, irregularidade e cor da POSAS; os itens sensoriais do BBSIP em relação aos itens de dor e coceira da POSAS; os itens de reações emocionais do BBSIP e os itens de amizade e interação social da pontuação de resumo de saúde psicossocial do PedsQL; além dos itens de mobilidade, vida diária, aparência e sintomas de cicatriz física do BBSIP em relação à pontuação de resumo de saúde física do PedsQL19.
Não há um consenso sobre o tamanho mínimo da amostra para verificar a análise fatorial (AF)20,21. Muitos estudos sugerem que seja ideal ter pelo menos dez observações para cada variável coletada. Os autores afirmam que o tamanho da amostra também pode variar conforme a natureza dos dados analisados. Quando as variáveis se agrupam de forma clara nos fatores (sem cargas fatoriais cruzadas) e possuem alta comunalidade, não é necessário um grande volume de dados. A comunalidade é a proporção de variância comum presente numa determinada variável22.
É raro conseguir realizar uma análise fatorial com uma amostra inferior a 50 observações, recomendando que o ideal seja ter pelo menos 100. Além disso, os autores fazem as seguintes sugestões: como diretriz geral, deve-se ter no mínimo cinco vezes mais observações do que o número de variáveis analisadas, sendo a proporção ideal de dez para um; sempre buscar maximizar a razão entre casos e variáveis, o que pode ser alcançado ao selecionar as variáveis de forma cuidadosa, considerando aspectos teóricos e práticos23.
O tamanho da amostra pode depender de diversos fatores, sugerindo que a quantidade de observações coletadas deve ser baseada em critérios relacionados às cargas fatoriais e à comunalidade para determinar o tamanho adequado da amostra24.
O índice de adequação da amostra foi verificado por meio da medida Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e do teste de esfericidade de Bartlett25. O KMO varia de 0 a 1 e é classificado da seguinte forma: <0,5 inaceitável; 0,5-0,7 medíocre; 0,7-0,8 bom; 0,8-0,9 ótimo; e >0,9 excelente24. O teste de Bartlett deve ser estatisticamente significante (p<0,05)26.
Os dados foram inseridos inicialmente na planilha eletrônica do Microsoft Excel® 2013 e, posteriormente, transferidos para análise no software Statistical Package for the Social Sciences®, versão 22. As análises de consistência interna foram realizadas utilizando o coeficiente Alfa de McDonald no programa JAMOVI®, versão 2.4.16.
A pesquisa foi analisada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Londrina, conforme autorização do comitê, CAAE nº 04001918.0.0000.5231, e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Infantil Joana de Gusmão (HIJG), CAAE nº 04001918.0.3001.5361. Todos os participantes consentiram em participar do estudo, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), seja em formato impresso ou online.
RESULTADOS
Participaram desta validação 152 pais/cuidadores de crianças menores de oito anos, conforme as características sociodemográficas e clínicas apresentadas na Tabela 1.
A análise da confiabilidade do BBSIP-BR foi verificada por meio do coeficiente alfa de Cronbach, apresentando consistência interna dos itens de 0,955 e ômega de McDonald de 0,960, conforme detalhado na Tabela 2. Em todas as dimensões, teve valor superior a 0,70.
A reprodutibilidade foi avaliada por meio do coeficiente de correlação intraclasse, em um intervalo de duas semanas, com uma variação de 0,660 para amizades e interação social a 0,911 para o impacto geral, o intervalo de confiança variou de 0,403 a 0,957, conforme apresentado na Tabela 3.
Ao analisar os itens individualmente, observou-se que, na vida diária, os itens "comer" (8j) e "cuidar do próprio corpo" (8k) apresentaram valores muito abaixo do aceitável (Tabela 4).
A validade de construto foi avaliada por meio da AF, utilizou-se o KMO, que foi considerado bom (0,754) para adequação da amostra e p-valor Bartlet <0,05, indicando significância estatística, o que sugere que os dados são adequados para a análise fatorial24.
Na Tabela 5, estão apresentadas as estimativas das cargas fatoriais padronizadas, considerando a estrutura original do instrumento com dez dimensões. Todos os itens analisados apresentaram cargas fatoriais superiores a 0,4, o que indica que cada um deles é relevante e contribui significativamente para o constructo em questão e com uma comunalidade superior a 0,5 na maioria dos itens. Esses resultados reforçam a validade dos itens utilizados na pesquisa e sua capacidade de representar adequadamente as dimensões do construto.
A validade de critério foi avaliada por meio da correlação com o POSAS e o PedsQL. Todos os itens tiveram correlação de moderada a alta (Tabelas 6 e 7) com exceção da dimensão "rotina familiar". Na correlação do PedsQL com o BBSIP, a dimensão "rotina familiar" foi calculada, mas era esperado que não houvesse correlação, pois nenhum domínio do PedsQL se refere a esse item.
DISCUSSÃO
Este estudo investigou as propriedades psicométricas do BBSIP-BR para pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos com cicatrizes de pele por queimaduras. A validação de construto foi apoiada por meio da análise fatorial, e a validade de critério foi confirmada por meio das correlações, que se mostraram apropriadas em todos os itens. O suporte para a confiabilidade foi fornecido para todas as dimensões e a reprodutibilidade foi adequada para a maioria dos grupos de itens, bem como para alguns itens individuais.
No que diz respeito à validade do instrumento, estudos recentes destacam a importância de avaliar a validade de conteúdo, a validade de critério e a validade de construto para considerar um instrumento como válido10,27. A validade de conteúdo do BBSIP-BR para pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos foi comprovada, com todos os índices de validade de conteúdo (IVC) superiores a 0,879.
Tanto os valores do ômega de McDonald como do alpha de Cronbach foram considerados adequados, corroborando com o estudo do instrumento original realizado na Austrália e confirmando a confiabilidade satisfatória da versão traduzida e adaptada19.
A capacidade de reprodutibilidade apresentou um CCI ótimo e bom para a maioria dos domínios, embora a confiabilidade tenha sido moderada em três domínios específicos: mobilidade, vida diária, amizade e interação social.
Os itens "comer" e "cuidar do próprio corpo" (Tabela 4), pertencentes ao domínio vida diária, apresentaram um resultado baixo que pode ser atribuído à idade das crianças, das quais 30,9% têm menos de dois anos e ainda não possuem autonomia para realizar essas atividades independente dos pais/cuidadores. Pode ter ocorrido viés nas respostas dos pais/cuidadores, que poderiam ter interpretado a questão de diferentes maneiras. Alguns talvez não tenham percebido impacto algum, enquanto outros podem ter achado que a pergunta não se aplicava e, por isso, decidiram não respondê-la.
Esses resultados são consistentes com o do instrumento original, que indicou também a mobilidade e as atividades da vida diária com uma reprodutibilidade inferior ao esperado. Os autores sugerem que isso pode ter sido influenciado pela instabilidade dos construtos medidos durante o período de teste escolhido (ou seja, uma a duas semanas após o período pós-agudo inicial) e por possíveis mudanças no impacto da cicatrização física que podem estar ocorrendo.
Um estudo conduzido com o instrumento Burn Outcomes Questionnaire para crianças de zero a 5 anos aplicou uma medida de repetição em um intervalo de dez dias entre os testes, envolvendo 46 cuidadores. Essa avaliação também revelou coeficientes de confiabilidade considerados insatisfatórios para alguns itens, como: 'satisfação', 'brincadeira', 'motor fino', 'comportamento', 'família', 'aparência' e 'preocupação/ansiedade' (CCI = 0,35-0,64)28. Os autores do BBSIP0-8 sugerem que as mudanças no curso clínico subjacente, juntamente com o desenvolvimento infantil, podem ser fatores que contribuem para a instabilidade de alguns itens, que não apresentaram consistência19.
Por sua vez, as correlações hipotéticas do BBSIP-0-8 com o POSAS e o PedsQL foram positivas em todas as dimensões esperadas nesta pesquisa. No estudo original, a correlação com o PedsQL também foi positiva, enquanto com o POSAS foi parcialmente positiva, pois nas dimensões de coceira e espessura observaram-se correlações mais fortes em comparação com as dimensões de dor e rigidez19.
Além disso, o tamanho amostral demonstrou-se adequado24, no qual indica que instrumentos com dez ou mais cargas fatoriais superiores a 0,4 requerem um tamanho mínimo de amostra de 150 participantes. Em relação à comunalidade, valores em torno de 0,5 sugerem que a amostra deve estar entre 100 e 200. Um estudo realizado com adolescentes considerou AFC adequada, apresentando coeficientes acima de 0,3, e manteve a escala traduzida de forma consistente com a versão original, utilizando uma população de 124 indivíduos29.
Uma das limitações deste estudo foi a inclusão de crianças com cicatrizes em diferentes fases do processo de cicatrização, e não apenas na fase aguda. Essa heterogeneidade pode dificultar a determinação precisa de se as variações observadas na reprodutibilidade refletem mudanças reais nas cicatrizes ou variabilidade nas medições realizadas. Além disso, diferentes tipos de cuidados e tratamentos recebidos pelas crianças, bem como outros fatores, não avaliados neste estudo, podem ter influenciado os resultados obtidos.
CONCLUSÕES
O BBSIP-BR apresenta-se como um instrumento confiável e válido para ser utilizado na população brasileira de pais/cuidadores de crianças menores de 8 anos. Apresenta dados robustos de reprodutibilidade, validade de construto e de critério convergente. Embora não seja objetivo do estudo, identificou-se que os meninos e as crianças em idade pré-escolar são mais frequentemente afetados por queimaduras, com acidentes domésticos e escaldaduras sendo as principais causas.
A implementação do BBSIP-BR em centros de queimados pode aprimorar a avaliação e o tratamento de cicatrizes em crianças menores de 8 anos, oferecendo uma visão abrangente dos impactos físicos, emocionais e sociais. O instrumento permite personalizar os planos de tratamento conforme as necessidades individuais, promovendo uma gestão eficaz da qualidade de vida.
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Recebido em
23 de Janeiro de 2026.
Aceito em
26 de Março de 2026.
Local de realização do trabalho: Universidade Estadual de Londrina, Londrina, PR, Brasil; Hospital Infantil Joana de Gusmão (HIJG), Florianópolis, SC, Brasil.
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.