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Acesso aberto Revisado por pares
Editorial

Além da sobrevida: Por que precisamos estudar os custos em queimaduras?

Beyond survival: Why do we need to study the costs of burns?

Fabiano Calixto Fortes de Arruda

DOI: 10.5935/2595-170X.20260009

Nas últimas décadas, a assistência ao paciente queimado evoluiu de maneira extraordinária. O aprimoramento dos cuidados intensivos, o desenvolvimento de novas coberturas, os avanços da cirurgia reconstrutiva e a atuação multidisciplinar contribuíram para uma redução significativa da mortalidade e para melhores resultados funcionais e estéticos. Entretanto, à medida que a ciência avança, surge uma questão igualmente importante: qual é o custo dessa assistência e como podemos oferecer o melhor tratamento de forma sustentável?


As queimaduras continuam representando um importante problema de saúde pública mundial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 180 mil mortes por queimaduras ocorrem anualmente, sendo a maioria em países de baixa e média renda, onde os recursos destinados à saúde são frequentemente limitados1.


Embora a mortalidade seja um indicador fundamental, ela não é capaz de traduzir toda a magnitude do impacto das queimaduras. Internações prolongadas, múltiplos procedimentos cirúrgicos, necessidade de reabilitação, sequelas permanentes, afastamento laboral e repercussões psicológicas transformam as queimaduras em uma das condições traumáticas de maior impacto econômico para pacientes, famílias e sistemas de saúde.


Nesse cenário, os estudos econômicos assumem papel cada vez mais relevante. A revisão sistemática de Hop et al.2 demonstrou que os custos do tratamento de queimaduras variam amplamente, podendo ultrapassar centenas de milhares de dólares por paciente. Os autores também chamam atenção para a heterogeneidade metodológica dos estudos existentes, evidenciando a necessidade de maior padronização e produção científica nessa área.


Posteriormente, Saavedra et al.3 reforçaram que o custo hospitalar do tratamento de queimados apresenta importante variabilidade entre diferentes países e sistemas de saúde, dificultando extrapolações e ressaltando a necessidade de dados locais. Essa observação é particularmente relevante para o Brasil, onde ainda dispomos de escassez de estudos econômicos capazes de refletir nossa realidade assistencial.


Mais recentemente, a medicina vem incorporando o conceito de value-based healthcare, no qual o valor da assistência é definido pela relação entre os resultados alcançados e os recursos empregados4,5. Sob essa perspectiva, não basta saber se uma intervenção funciona; é necessário compreender se ela oferece benefício suficiente para justificar os custos envolvidos.


Essa abordagem é especialmente importante em queimaduras. Novas tecnologias, substitutos dérmicos, terapias celulares, curativos avançados e protocolos de reabilitação devem ser avaliados não apenas quanto à eficácia, mas também sob a ótica da custo-efetividade. O objetivo não é restringir o acesso às inovações, mas garantir que os recursos disponíveis sejam utilizados de maneira racional, promovendo maior benefício ao maior número possível de pacientes.


Além disso, estudos econômicos podem servir como importante instrumento de defesa das unidades especializadas em queimaduras. Frequentemente percebidas como estruturas de alto custo, essas unidades, na realidade, podem representar investimento altamente custo-efetivo, uma vez que a abordagem especializada está associada à redução de complicações, menor tempo de internação e melhores desfechos funcionais.


Outro aspecto frequentemente negligenciado diz respeito aos custos indiretos. A perda de produtividade, as aposentadorias precoces, as limitações funcionais e o impacto psicossocial das sequelas representam um ônus que vai muito além dos gastos hospitalares. Portanto, avaliar apenas os custos diretos significa enxergar apenas uma fração do problema.


A literatura em queimaduras avançou substancialmente no entendimento da fisiopatologia, da ressuscitação volêmica, das infecções e da reconstrução. Talvez seja o momento de ampliarmos essa agenda científica e incorporarmos, de forma mais sistemática, os estudos de custo, custo-efetividade e custo-utilidade.


Mais do que uma questão financeira, trata-se de uma questão de responsabilidade científica e social.


A medicina moderna não pode se limitar a responder o que funciona. Precisamos também responder quanto custa, para quem funciona e qual valor essa intervenção entrega à sociedade.


Somente assim conseguiremos construir sistemas de saúde mais sustentáveis e oferecer aos nossos pacientes uma assistência baseada não apenas em evidências, mas também em valor.


REFERÊNCIAS


1. World Health Organization. Burns. Geneva: WHO; 2024 [acesso 10 jun 2026]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/burns


2. Hop MJ, Polinder S, van der Vlies CH, Middelkoop E, van Baar ME. Costs of burn care: a systematic review. Wound Repair Regen. 2014;22(4):436-50. DOI: 10.1111/wrr.12189


3. Saavedra PAE, De Oliveira Leal JV, Areda CA, Galato D. The Costs of Burn Victim Hospital Care around the World: A Systematic Review. Iran J Public Health. 2021;50(5):866-78. DOI: 10.18502/ijph.v50i5.610


4. Hop MJ, Wijnen BF, Nieuwenhuis MK, Dokter J, Middelkoop E, Polinder S, et al.; Dutch Burn Repository group. Economic burden of burn injuries in the Netherlands: a 3-month cost analysis. Injury. 2016;47(1):203-9. DOI: 10.1016/j.injury.2015.09.009


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