Gabriel Palhari Comar; João Pedro Fabrini da Silva; Beatriz Conti Villa; Heloísa Domingues Gastaldi; Sílvia Paulino Ribeiro Albanese
DOI: 10.5935/2595-170X.20260013
RESUMO
OBJETIVO: A infecção por Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus é comum em paciente queimados e está associada a alta morbimortalidade. O S. aureus é frequentemente o patógeno mais isolado, enquanto o P. aeruginosa tende a predominar em infecções mais tardias. A colonização bacteriana é um fator de risco importante para a perda de enxerto de pele, uma das complicações nas cirurgias reparadoras por queimadura. Este estudo retrospectivo comparou o impacto da colonização por P. aeruginosa versus S. aureus nos desfechos clínico-cirúrgicos, como a falha do enxerto, em pacientes queimados.
MÉTODO: Foram analisados 1382 prontuários de pacientes com queimaduras submetidos a enxertia de pele entre janeiro de 2018 e dezembro de 2023. A amostra final consistiu em 243 pacientes, excluindo-se aqueles em UTI ou com lesões não relacionadas a queimadura. A análise estatística utilizou teste de Qui-quadrado e o teste exato de Fisher.
RESULTADOS: O principal microrganismo foi P. aeruginosa (25,77%), seguido por S. aureus (14,43%). A análise estatística mostrou associação significativa entre a colonização por P. aeruginosa e a perda de enxerto (p=0,0104). Não houve associação significativa entre a colonização por S. aureus e a falha de enxertia.
CONCLUSÕES: A colonização por P. aeruginosa é um fator de alerta para desfechos cirúrgicos negativos em pacientes queimados, especialmente em relação à falha do enxerto de pele. O estudo reforça a importância de monitorar a microbiologia da ferida para otimizar o manejo clínico.
Palavras-chave: Pseudomonas aeruginosa. Staphylococcus aureus. Queimaduras. Infecções por Pseudomonas. Infecções Estafilocócicas.
ABSTRACT
OBJECTIVE: Infections by Pseudomonas aeruginosa and Staphylococcus aureus are common in burn patients and associated with high morbidity and mortality. S. aureus is frequently the most isolated pathogen, while P. aeruginosa tends to predominate in later infections. Bacterial colonization is a major risk factor for skin graft loss, one of the complications in burn reconstructive surgeries. This retrospective study compared the impact of P. aeruginosaversusS. aureus colonization on clinical-surgical outcomes, such as graft failure, in burn patients.
METHODS: A total of 1,382 medical records of burn patients who underwent skin grafting between January 2018 and December 2023 were reviewed. The final sample included 243 patients, excluding those in ICU or with non-burn lesions. Statistical analysis was performed using the Chi-square test and Fisher's exact test.
RESULTS: The main microorganism was P. aeruginosa (25.77%), followed by S. aureus (14.43%). Statistical analysis demonstrated a significant association between P. aeruginosa colonization and graft loss (p=0.0104). No significant association was found between S. aureus colonization and graft failure.
CONCLUSIONS: Colonization by P. aeruginosa is a warning factor for negative surgical outcomes in burn patients, particularly regarding skin graft failure. This study highlights the importance of wound microbiology monitoring to optimize clinical management.
Keywords: Pseudomonas aeruginosa. Staphylococcus aureus. Burns. Pseudomonas Infections. Staphylococcal Infections.
INTRODUÇÃO
A infecção por Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus é altamente prevalente em pacientes queimados, sendo ambos considerados patógenos críticos devido à sua associação com morbimortalidade e resistência antimicrobiana significativa. O S. aureus, incluindo cepas resistentes à meticilina (MRSA), frequentemente colonizam e infectam feridas de queimaduras, principalmente nos primeiros dias após o trauma, por sua vez, o P. aeruginosa tende a predominar em infecções mais tardias, estando associada à bacteremia e sepse grave1-6.
A literatura médica demonstra que o S. aureus é frequentemente o agente mais isolado em feridas de queimaduras, com taxa entre 30% e 50% dos casos, seguido por P. aeruginosa, que corresponde de 7% a 34% dos isolados, a depender do contexto epidemiológico e do tempo de internação1-3,6,7.
O manejo inicial das infecções em pacientes queimados deve considerar a alta probabilidade de patógenos multirresistentes. A abordagem recomendada envolve início precoce de antibióticos de amplo espectro, com rápido desescalonamento após identificar o microrganismo e seu perfil de sensibilidade. Em destaque, a prevenção de infecções é fundamental e envolve cuidados rigorosos com curativos, controle de infecção hospitalar e, quando indicado, desbridamento precoce. O risco de infecção é exponencial com maior extensão da queimadura, tempo de internação, procedimentos invasivos e presença de dispositivos, como cateteres1-6.
Embora Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus estejam entre os patógenos mais frequentemente isolados em pacientes queimados, ainda são limitadas as evidências que esclareçam de maneira objetiva o impacto dessas infecções sobre o sucesso da enxertia cutânea. A maior parte dos estudos concentra-se na caracterização microbiológica, enquanto os desfechos cirúrgicos, como perda de enxertia e necessidade de nova intervenção, permanecem pouco explorados. Considerando que a falha da enxertia implica maior morbidade, prolongamento da internação e aumento de custos assistenciais, torna-se fundamental compreender melhor essa relação. Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo avaliar e comparar a incidência de falha de enxertia em pacientes com isolamento de P. aeruginosa e S. aureus, buscando determinar a possível associação entre esses patógenos e os resultados cirúrgicos.
MÉTODO
Trata-se de um estudo retrospectivo, com abordagem quantitativa. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, com CAE 35791720.0.0000.0020. Os pacientes não foram abordados pessoalmente, não havendo necessidade de assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme dispensa do comitê de ética antes do início do estudo. Foram coletados dados de prontuários do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Universitário de Londrina (HU/UEL), em Londrina-PR.
Foram incluídos no estudo os pacientes vítimas de queimaduras que realizaram enxertia de pele na mesma internação, maiores de 18 anos, entre os períodos de janeiro de 2018 e dezembro de 2023, assim garantindo uma amostra homogênea. Os critérios de exclusão do estudo foram: pacientes internados em unidade de terapia intensiva (UTI) - devido ao uso de drogas vasoativas que podem influenciar na adesão do enxerto e pela presença de patógenos específicos.
O diagnóstico de infecção da ferida foi definido pela presença concomitante de sinais clínicos e cultura positiva para P. aeruginosa ou S. aureus. Foram considerados sinais clínicos registrados em prontuário: febre, leucocitose, aumento de exsudato, presença de secreção purulenta com ou sem odor fétido. A identificação microbiológica foi realizada por meio de cultura de tecido profundo obtido por biópsia durante o ato cirúrgico de enxertia. Pacientes com cultura positiva na ausência de sinais clínicos, bem como aqueles com sinais clínicos sem confirmação microbiológica, foram classificados como não infectados para fins de análise.
As análises foram realizadas utilizando o software R. A análise descritiva foi utilizada para cálculos de medida descritivas (média), frequência absoluta e relativa. A comparação das variáveis categóricas foi realizada por meio do teste de exato de Fischer ou teste de Qui-quadrado. Adotou-se (p<0,05) como significativo.
RESULTADOS
Um total de 1382 pacientes foram submetidos à enxertia de pele devido a queimadura durante o período de estudo. Considerando que alguns pacientes que constavam na lista de pacientes estiveram internados na UTI ou foram submetidos a enxerto de pele devido a acidente automobilísticos, lesão por pressão dentre outras indicações, foram excluídos, sendo 1139 pacientes (82,41%).
Os pacientes, maioria do sexo masculino (65,43%), apresentaram idade média de 41,34 anos (± 14,56) anos). Aproximadamente 21% tiveram perda de enxertia da pele após a cirurgia reparadora. 0,41% dos pacientes internados foram a óbito (Tabela 1).

O principal microrganismo colonizador nos pacientes vítimas de queimadura foi P. aeruginosa, em 25,77% dos casos, seguido de 14,43% por S. aureus. Outros microrganismos foram encontrados, como E. faecalis, A. baumannii, etc. (Tabela 2).
O Gráfico 1 demonstra que, entre 25 pacientes com colonização para P. aeruginosa, 56% sofreram perda do enxerto em comparação com 31,9% dos 72 pacientes sem a bactéria. A análise para a relação entre a colonização por P. aeruginosa e a perda de enxerto apresentou um valor de p=0,058, que se apresenta próximo do limiar de significância. Essa proximidade sugere uma tendência de associação que, embora não seja estatisticamente significativa neste estudo específico, merece atenção e pode ser investigada em pesquisas com amostragem maiores. No entanto, quando os grupos foram avaliados de forma mais detalhada, o teste exato de Fischer demonstrou uma associação estatisticamente significativa entre a perda de enxerto e a colonização por P. aeruginosa (p=0,0104), reforçando a relevância clínica desse patógeno como fator de risco para falha do procedimento.

O Gráfico 2 apresenta uma diferença menos acentuada, com 42,9% dos 14 pacientes com a colonização por S. aureus sofrendo perda de enxertia versus 37,3% dos 83 pacientes sem a bactéria. O teste de Qui-quadrado para essa relação apresentou um valor p de 0,924, demonstrando que não há associação estatisticamente significativa.

Avaliando os grupos de forma mais detalhada, o Gráfico 3 analisa a associação entre 'Grupo' e 'Perda', mostra a distribuição do desfecho entre os pacientes com base na presença dos microrganismos. O teste Exato de Fisher (p=0,02) indicou uma associação estatisticamente significativa entre o grupo ao qual o paciente pertence (Ambos, Nenhum, P. Aeruginosa ou S. Aureus) e a ocorrência de 'Perda'.

DISCUSSÃO
A perda de enxerto cutâneo é uma complicação relevante em pacientes queimados, resultante da interação entre fatores locais, sistêmicos e microbiológicos que interferem na revascularização e integração do enxerto. A colonização bacteriana da ferida, especialmente por P. aeruginosa e S. aureus, tem sido descrita como fator potencialmente associado à falha de enxertia8.
No presente estudo, observou-se maior frequência de perda de enxerto no grupo com cultura positiva para P. aeruginosa (60,9%) quando comparado aos pacientes sem colonização, achado que se alinha à literatura, que aponta esse patógeno como preditor independente de falha de enxerto cutâneo9. Estudos clínicos e revisões clássicas em unidades de queimados demonstram que P. aeruginosa está associada a maior incidência de necrose de enxerto e necessidade de reintervenção cirúrgica, especialmente devido à sua capacidade de formar biofilme e produzir fatores de virulência, como elastases e exotoxina A, que degradam a matriz extracelular e comprometem a angiogênese necessária à integração do enxerto9,10. Além disso, investigações experimentais indicam que a elevada carga bacteriana e a organização em biofilme estão diretamente relacionadas ao atraso da cicatrização e à maior taxa de falha reconstrutiva11.
Em relação a S. aureus, embora não tenha sido observada associação estatisticamente significativa com perda de enxerto em nossa amostra (p=0,924), estudos prévios demonstram que esse microrganismo está associado a maior tempo de internação, maior incidência de complicações infecciosas e aumento da necessidade de procedimentos adicionais12,13. Revisões epidemiológicas em centros especializados indicam que, apesar de sua alta prevalência em feridas de queimados, o impacto direto sobre falha de enxertia pode variar conforme a carga bacteriana, virulência da cepa e condições clínicas do hospedeiro10. A ausência de significância estatística em nosso estudo pode estar relacionada ao tamanho amostral ou ao poder estatístico limitado para detectar diferenças nesse subgrupo específico.
Dessa forma, os resultados reforçam a importância da vigilância microbiológica e do reconhecimento precoce da colonização por P. aeruginosa como possível marcador de risco para falha de enxertia. Contudo, são necessários estudos prospectivos com maior controle de variáveis confundidoras e análise multivariada para definir de maneira mais precisa a contribuição independente de cada patógeno nos desfechos clínicos-cirúrgicos da enxertia cutânea em pacientes queimados.
CONCLUSÕES
Este estudo investigou o impacto do desfecho de enxerto de pele com colonização bacteriana por P. aeruginosa e S. aureus em pacientes queimados. A pesquisa revelou que a principal bactéria encontrada nas culturas foi a P. aeruginosa, seguida pelo S. aureus. O estudo indicou que, embora a associação individual da P. aeruginosa com a perda de enxerto, sugere uma tendência entre a presença de P. aeruginosa e a perda de enxerto (p=0,0104).
Em suma, os resultados apontam a colonização por P. aeruginosa como um fator de alerta para o desfecho cirúrgico de pacientes queimados, corroborando a literatura, que associa a presença dessa bactéria à maior perda do enxerto.
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Recebido em
2 de Outubro de 2025.
Aceito em
22 de Fevereiro de 2026.
Local de realização do trabalho: Hospital Universitário de Londrina, Londrina, PR, Brasil.
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.