Letícia de Jesus Soares1; Maria Cristina Nunes Melo1; Thaís de Jesus Soares2; Ludmilla Diniz Oliveira Andrade1
DOI: 10.5935/2595-170X.20260014
RESUMO
OBJETIVO: Queimaduras são lesões que afetam a saúde física e emocional dos indivíduos e podem comprometer sua qualidade de vida (QV). Este estudo teve como objetivo avaliar a QV de indivíduos em acompanhamento fisioterapêutico ambulatorial de um centro de tratamento de queimados de Minas Gerais, segundo a Burn Specific Health Scale-Brief - Brasil (BSHS-B-br), e determinar as relações entre variáveis sociodemográficas, histórico de queimaduras e dos domínios da BSHS-B-br.
MÉTODO: Realizou-se um estudo transversal com 61 participantes, entre os meses de abril e julho de 2025, por meio da aplicação da escala BSHS-B-br e da coleta de dados em prontuário eletrônico institucional. Análises estatísticas foram realizadas comparando os escores obtidos nos domínios da BSHS-B-br. Foram utilizadas regressões lineares múltiplas com o método stepwise para obter um modelo que permitisse a predição da BSHS-B-br em função das variáveis independentes.
RESULTADOS: Observou-se escore global médio de 2,85, indicando comprometimento relevante da qualidade de vida. Os domínios com piores escores foram sensibilidade ao calor, trabalho e imagem corporal, enquanto relações interpessoais apresentou a maior pontuação.
CONCLUSÕES: Indivíduos após queimaduras apresentam comprometimento expressivo da qualidade de vida, principalmente em aspectos físicos e psicossociais relacionados à reintegração social e laboral. A aplicação da BSHS-B-Br mostrou-se uma ferramenta sensível para identificar áreas prioritárias de intervenção, reforçando a importância do acompanhamento fisioterapêutico e multiprofissional contínuo no processo de reabilitação.
Palavras-chave: Queimaduras. Qualidade de Vida. Reabilitação. Modalidades de Fisioterapia.
ABSTRACT
OBJECTIVE: Burns are injuries that affect individuals physical and emotional health and may compromise their quality of life (QoL). This study aimed to assess the QoL of individuals undergoing physiotherapy follow-up at an outpatient burn treatment center in Minas Gerais using the Burn Specific Health Scale-Brief - Brazil (BSHS-B-Br), and to determine the relationships between sociodemographic variables, burn history, and the BSHS-B-Br domains.
METHODS: A cross-sectional study was conducted with 61 participants between April and July 2025, using the BSHS-B-Br scale and data obtained from electronic medical records. Statistical analyses were performed comparing the scores of the BSHS-B-Br domains. Multiple linear regressions using a stepwise method were used to develop a model predicting BSHS-B-Br scores from independent variables.
RESULTS: The mean global score was 2.85, indicating a relevant impairment in quality of life. The domains with the lowest scores were heat sensitivity, work, and body image, whereas interpersonal relationships showed the highest score.
CONCLUSIONS: Individuals after burn injuries present significant impairment in quality of life, particularly in physical and psychosocial aspects related to social and occupational reintegration. The use of the BSHS-B-Br proved to be a sensitive tool for identifying priority areas for intervention, reinforcing the importance of continuous physiotherapeutic and multidisciplinary follow-up in the rehabilitation process.
Keywords: Burns. Quality of Life. Rehabilitation. Physical Therapy Modalities.
INTRODUÇÃO
As queimaduras são lesões traumáticas da pele e tecidos adjacentes, causadas por agentes térmicos, elétricos, químicos ou radioativos, podendo gerar repercussões locais e sistêmicas. A gravidade relaciona-se à etiologia, profundidade e extensão da superfície corporal queimada (SCQ)1,2. Globalmente, estima-se cerca de 180 mil mortes por queimaduras anualmente, configurando um importante problema de saúde pública, com elevado custo assistencial e impacto funcional, estético e psicossocial3.
Os avanços terapêuticos das últimas décadas reduziram significativamente a mortalidade por queimaduras. Como consequência do aumento da sobrevida, observa-se maior prevalência de sequelas físicas e emocionais, particularmente deformidades e limitações funcionais decorrentes de cicatrizes hipertróficas. Essas cicatrizes anormais acometem com maior frequência áreas articulares e mãos, podendo gerar dor, prurido, rigidez, restrição de movimento e insatisfação estética, comprometendo de forma importante a qualidade de vida (QV)3,4. Além da terapia compressiva para a prevenção e o manejo dessas sequelas, incluem-se recursos fisioterapêuticos, como cinesioterapia e métodos eletrotermofototerapêuticos, que contribuem para reduzir complicações cicatriciais, preservar a mobilidade e otimizar a funcionalidade3-6.
Para acompanhamento clínico, destacam-se instrumentos validados como a Vancouver Scar Scale (VSS), voltada para avaliação cicatricial, e a Burn Specific Health Scale-Brief - Brasil (BSHS-B-Br), versão adaptada da BSHS, que mensura a QV da vítima queimada em múltiplos domínios específicos4,7,8.
A avaliação da QV é reconhecida como um indicador fundamental na assistência à saúde e constitui um constructo multidimensional e subjetivo, que reflete a percepção do indivíduo sobre sua posição e condição de saúde no contexto de sua vida, cultura e valores pessoais, abrangendo dimensões físicas, emocionais, sociais e funcionais. É considerada uma variável tão relevante quanto a sobrevida ou a taxa de mortalidade, configurando-se como um importante parâmetro para a pesquisa, para a saúde pública e para a avaliação da efetividade do cuidado prestado5,9,10.
No contexto das queimaduras, esse constructo é frequentemente avaliado por instrumentos específicos como o BSHS-B-Br que considera as particularidades físicas e psicossociais decorrentes da lesão e do processo de reabilitação, permitindo compreender de forma abrangente o bem-estar e a recuperação das vítimas de queimaduras4,5,9.
Assim, este estudo teve como objetivo avaliar a QV de pacientes em acompanhamento ambulatorial fisioterapêutico após alta hospitalar em um centro de referência de Minas Gerais, utilizando BSHS-B-Br e investigar a relação entre variáveis sociodemográficas, clínicas e funcionais com os diferentes domínios avaliados.
MÉTODO
Desenho do estudo e aspectos éticos
Trata-se de um estudo observacional do tipo transversal analítico, realizado no Ambulatório de retorno do Centro de Tratamento de Queimados Professor Ivo Pitanguy (CTQ) do Hospital João XXIII (HJXXIII), localizado na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), CAAE: 85918825.2.0000.5119. Todos os participantes foram esclarecidos sobre os objetivos e procedimentos do estudo, e tiveram o sigilo de seus dados pessoais garantido. A partir disso, foram convidados a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) concordando com a participação no estudo.
Participantes
Incluíram-se no estudo pacientes classificados como médios e grandes queimados, com idade igual ou superior a 18 anos, de ambos os sexos, que apresentavam queimaduras em pelo menos uma das seguintes regiões: face, tórax e/ou membros superiores (MMSS), podendo estas ocorrer de forma isolada ou concomitante. Permaneceram hospitalizados e estavam em acompanhamento ambulatorial com a equipe de Fisioterapia do Hospital João XXIII (HJXXIII), no período de abril a julho de 2025. Excluíram-se indivíduos classificados como médios ou grandes queimados, que apresentavam queimaduras exclusivamente em membros inferiores (MMII).
Procedimentos e coleta de dados
Identificou-se por meio da lista de agendamento do ambulatório os pacientes elegíveis a participar do estudo. Posteriormente, estes indivíduos foram convidados a participar da pesquisa. O questionário Burn Specific Health Scale-Brief (BSHS-B-Br) foi respondido após consentimento e assinatura do TCLE. O BSHS-B-Br é um instrumento autoaplicável que avalia a qualidade de vida das vítimas de queimadura, validado para o português em 2015. Possui 40 itens distribuídos em nove domínios: habilidades simples (itens 1-3), função das mãos (itens 4-8), trabalho (itens 9, 38-40), afetividade (itens 10-16), relações interpessoais (itens 17-20), sexualidade (itens 21-23), imagem corporal (itens 24-27), sensibilidade ao calor (itens 28-32) e regime de tratamento (itens 33-37).
Utiliza uma escala Likert de 0 a 4 pontos, em que pontuações mais altas indicam melhor qualidade de vida. Além da pontuação total (0-160), os domínios podem ser analisados individualmente ou pela média dos itens, possibilitando uma avaliação mais detalhada das áreas afetadas. Para fins interpretativos, foi adotada neste estudo uma classificação própria dos escores, baseada na amplitude da escala, com o objetivo de facilitar a análise clínica da qualidade de vida, sem caráter normativo. Os valores foram categorizados em cinco intervalos: 0-0,9 (muito comprometido), 1,0-1,9 (comprometimento grave), 2,0-2,9 (comprometimento moderado), 3,0-3,4 (leve comprometimento) e ≥3,5-4,0 (boa qualidade de vida).
Os dados clínicos e demográficos foram extraídos dos prontuários eletrônicos e incluíram: intencionalidade da queimadura, áreas atingidas, extensão da SCQ, idade, sexo, grau da lesão, prurido, presença de limitações de amplitude de movimento (ADM), uso de malha compressiva, uso de órteses, tempo de internação e tempo decorrido após o trauma. Durante a consulta, a cicatrização e regeneração tecidual foram avaliadas através da pontuação atual na VSS. Instrumento composto por quatro itens, sendo eles: pigmentação, vascularização, flexibilidade e altura, com a pontuação final variando de 0 a 13, em que pontuação mais altas mostram maiores comprometimentos. Para a avaliação de dor e prurido, utilizou-se a Escala Visual Analógica (EVA), instrumento unidimensional para a avaliação de intensidade, através de uma linha com as extremidades numeradas de 0-10.
Análise dos dados
A caracterização da amostra e dos desfechos foi realizada por estatística descritiva, com variáveis contínuas apresentadas como média ± desvio-padrão ou mediana e intervalo interquartil (25-75%), conforme a normalidade avaliada pelo teste de Shapiro-Wilk, e variáveis categóricas como frequências absolutas e relativas (%). Para comparações entre grupos, foram aplicados testes t de Student ou Mann-Whitney para duas amostras independentes, e Kruskal-Wallis para três ou mais grupos, conforme a distribuição dos dados. Para variáveis categóricas, utilizaram-se os testes Qui-Quadrado ou exato de Fisher, com nível de significância adotado de 5% (p<0,05).
Para avaliar associações entre a qualidade de vida (pontuação do BSHS-B-Br) e variáveis clínicas e sociodemográficas, foi utilizada a correlação de Spearman.
Para identificar preditores das subescalas e do escore total, aplicou-se regressão linear múltipla stepwise, mantendo no modelo final apenas variáveis significativas (p<0,05). Variáveis categóricas foram incluídas por meio de codificação dummy. O ajuste foi avaliado por R², R² ajustado e teste F, a independência dos resíduos pelo teste de Durbin-Watson (D-W), e a multicolinearidade pelo VIF (<5). Todas as análises foram conduzidas no software SPSS versão 31.0 e SPSSAU 2025, utilizando os dados tabulados da pesquisa, sem necessidade de reavaliação dos participantes em diferentes momentos.
RESULTADOS
O questionário foi aplicado a 61 indivíduos, e todos os pacientes que foram convidados a fazer parte da pesquisa, concordaram em participar. A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas e clínicas da amostra.
A pontuação na VSS no momento da coleta apresentou mediana de 8 (n=60; 0-11), na avaliação da dor a EVA média foi de 1.393 (n=61; 0-10) e do prurido a mediana foi de 4 (n=61; 1-10). A Figura 1 apresenta as regiões mais acometidas.
As pontuações mais baixas do BSHS-B-Br foram observadas nos domínios (Tabela 2): sensibilidade ao calor (1.40; IQR=0.70-2.60), trabalho (2.25; IQR=0.38-4.00) e imagem corporal (3.00; IQR=1.50-3.50). O domínio com valor mais elevado foi o de relações interpessoais (4.00; IQR=3.50-4.00). O escore global do instrumento foi de 2.85 (IQR=2.40-3.50).
A análise da associação entre variáveis clínicas, sociodemográficas e os domínios do BSHS-B-Br foi realizada para todas as variáveis incluídas no estudo, as que evidenciaram diferenças significativas em aspectos da qualidade de vida dos participantes são apresentadas a seguir. Pacientes com queimaduras de 3º grau apresentaram escores mais baixos nos domínios afeto (p=0,027), relações interpessoais (p=0,020) e no escore global (p=0,044), em comparação àqueles com queimaduras de 2º grau. Quanto à extensão da lesão, queimaduras de maior extensão estavam associadas a pior sensibilidade ao calor (p=0,040).
A realização de enxerto esteve relacionada a escores inferiores nos domínios função das mãos (p=0,022) e relações interpessoais (p=0,042). Da mesma forma, a presença de limitação de ADM associou-se a pior desempenho em função das mãos (p=0,015), trabalho (p=0,004), imagem corporal (p=0,048), sensibilidade ao calor (p=0,012) e no escore global (p=0,017).
A necessidade de uso de órteses associou-se significativamente a um maior comprometimento nos domínios habilidades simples (p=0,004), função das mãos (p=0,021) e trabalho (p=0,008). Da mesma forma, o uso de malha compressiva relacionou-se à pior percepção em relações interpessoais (p=0,045).
Em relação ao gênero, verificou-se que mulheres apresentaram escores mais baixos em praticamente todos os domínios avaliados (Tabela 3).
Observou-se ainda associação de maior superfície corporal queimada e piores escores nos domínios Afeto (p=0,049) e Sensibilidade ao calor (p=0,045). Em relação à intencionalidade da queimadura, vítimas de agressão e TAE apresentaram os menores escores em afeto, relações interpessoais, sexualidade e imagem corporal (p<0,05). O tempo de internação também influenciou negativamente os resultados, com redução progressiva dos escores em afeto, sensibilidade ao calor e no escore global nos pacientes hospitalizados por mais de dois meses (p<0,05).
Os resultados das regressões lineares múltiplas (Tabela 4) permitiram a identificação de algumas variáveis independentes como preditoras significativas das subescalas do BSHS-B-Br. O modelo final ajustado para cada subescala significativa, assim como os resultados de multicolinearidade (VIF<2), indicaram ausência de colinearidade. As suposições de independência do erro foram aceitáveis, com resultados de D-W variando de 1.796 a 2.108, sugerindo ausência de autocorrelação e bom ajuste do modelo.
Os modelos de regressão stepwise foram significativos para todos os domínios do BSHS-B-Br, com exceção de regime de tratamento, explicando entre R²=24% e R²=45% da variância. Em habilidades simples (R²=34%) e no escore global (R²=42%), o sexo masculino esteve associado a maiores escores, de maneira contrária quanto maior tempo de internação, mais profunda forem as lesões, os pacientes que foram vítimas de agressão e apresentaram sensibilidade preservada estiveram relacionados a piores resultados. Para função das mãos (R²=24%), redução de sensibilidade, maior tempo de internação e dor predisseram menores escores. No domínio trabalho (R²=39%), tempo de internação e limitação da amplitude de movimento pioraram o escore. Em relações interpessoais (R²=41%), piores escores foram observados entre vítimas de TAE, agressão, queimaduras térmicas e elétricas, além da presença de prurido.
Nos domínios Afeto (R²=29%), Sexualidade (R²=30%) imagem corporal (R²=39%) e sensibilidade ao calor (R²=45%), os modelos também identificaram fatores relevantes. O domínio sensibilidade ao calor apresentou o maior poder explicativo, correlacionado negativamente com tempo de internação, limitação funcional, agressão e retorno a sensibilidade normal.
De forma geral, os modelos mostraram que o sexo masculino esteve relacionado a melhores escores de qualidade de vida. De maneira contrária, as limitações funcionais, fatores clínicos e etiológicos desfavoráveis contribuíram para menores escores.
DISCUSSÃO
Este estudo buscou avaliar a qualidade de vida de indivíduos em acompanhamento ambulatorial após queimaduras, utilizando a BSHS-B-Br, e identificar fatores associados aos diferentes domínios do instrumento. Optou-se para melhor análise por realizar um reagrupamento dessas dimensões em duas: Física e Emocional. Os principais achados evidenciaram piores escores na dimensão física (sensibilidade ao calor, trabalho e imagem corporal), enquanto na dimensão emocional (relações interpessoais) houve maior pontuação. O escore global foi de 2,85, indicando comprometimento significativo da qualidade de vida, especialmente na dimensão físicas (ocupacionais e de autoimagem).
Nossos resultados estão em consonância com estudos nacionais que identificaram os mesmos domínios como mais afetados, sugerindo que limitações funcionais e estigma social persistem como barreiras importantes mesmo após a alta hospitalar. De forma semelhante, coortes internacionais relatam impacto prolongado na saúde física e mental até 20 anos após o trauma, com declínio progressivo da função física e mental, bem como da satisfação com a vida, especialmente em pacientes do sexo feminino, com maior superfície corporal queimada (SCQ) e maior tempo de internação10,11. Esses achados reforçam a visão contemporânea de que as queimaduras devem ser compreendidas como uma condição crônica, com repercussões a longo prazo que exigem acompanhamento ambulatorial contínuo e intervenções voltadas não apenas à fase aguda, mas também à reabilitação prolongada.
Na dimensão emocional, observou-se que indivíduos com queimaduras de 3º grau apresentaram piores escores de afeto, relações interpessoais e escore global. Essa associação entre profundidade da lesão, maior SCQ e piores desfechos já foi descrita em revisões sistemáticas, que apontam a gravidade clínica como um dos principais determinantes da qualidade de vida, com repercussões funcionais e maior incapacidade laboral12,13.
Além disso, o tempo de internação, que na presente amostra apresentou mediana de 32 dias, também se associou a escores inferiores em múltiplos domínios, corroborando a literatura que descreve hospitalizações prolongadas como marcador prognóstico negativo, tanto físico quanto psicológico11,12.
Outro achado relevante foi o comprometimento acentuado da função das mãos, associado à enxertia, limitação da ADM, dor, prurido e necessidade de órteses. Como descrito em revisões brasileiras e internacionais, queimaduras em regiões articulares e de alta demanda funcional geram impacto direto na autonomia, na capacidade de realizar atividades básicas e na reinserção laboral13,14.
Nesse contexto, há evidências de que programas estruturados de exercícios e reabilitação funcional favorecem a mobilidade, melhoram a força muscular e facilitam o retorno ao trabalho, mostrando-se fundamentais para a recuperação dessa população13,15,16.
No tocante ao trabalho, o impacto negativo foi evidente. A incapacidade laboral após queimaduras é uma preocupação recorrente. Estudos recentes mostram que menos da metade dos sobreviventes retorna plenamente às suas funções, mesmo após anos do trauma11,13. A associação entre baixa pontuação nesse domínio e variáveis funcionais reforça a importância da Fisioterapia, não apenas para restaurar a função, mas também como facilitadora da reinserção social e ocupacional15,16.
Na dimensão emocional, observou-se que o sexo feminino esteve associado a piores escores em todos os domínios, especialmente afeto e imagem corporal. Achado que acompanha resultados de grandes coortes internacionais, nas quais mulheres relataram maior comprometimento em saúde física, emocional e de autoimagem10,11. Essa diferença pode estar relacionada a fatores culturais, sociais e psicossociais que potencializam a vulnerabilidade feminina diante de sequelas estéticas e funcionais, reforçando a necessidade de estratégias específicas de suporte psicológico e fisioterapêutico para esse grupo17.
A etiologia e intencionalidade também influenciaram negativamente os escores: vítimas de agressão e TAE apresentaram pior qualidade nos domínios afeto, relações interpessoais, sexualidade e imagem corporal1,18. Esse resultado reforça evidências de que a dimensão psicossocial do trauma é determinante nos desfechos, e que tais pacientes apresentam maior risco de desenvolver depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. Considerando que essas condições são preditores independentes de pior qualidade de vida, ressalta-se a importância da triagem psicológica sistemática nos serviços de reabilitação, visando à identificação precoce e ao manejo adequado dos transtornos psiquiátricos17.
Por outro lado, o domínio relações interpessoais apresentou melhores resultados, sugerindo que a rede de apoio familiar e social funciona como fator protetor, favorecendo a adaptação e a resiliência. Estudos brasileiros apontam que a resiliência deve ser entendida como processo dinâmico, influenciado pelo contexto social, em que o suporte do(a) parceiro(a) exerce papel determinante na adaptação psicossocial e na melhoria da qualidade de vida19,20.
No presente estudo, não foi observada associação significativa entre idade e qualidade de vida. Embora diversos autores relatem tendência de redução da qualidade de vida com o avanço da idade, especialmente nos domínios físicos e funcionais, nossos achados divergem dessa tendência14,19. Uma possível explicação é a heterogeneidade da amostra, que incluiu participantes de diferentes faixas etárias, tempos de internação e graus de gravidade, fatores que podem ter atenuado o impacto da idade sobre a percepção de qualidade de vida. Além disso, aspectos psicossociais, como suporte familiar, acesso à reabilitação e estratégias de enfrentamento, podem ter exercido influência mais relevante que a idade cronológica na avaliação global.
Esses resultados reforçam a natureza multifatorial da reabilitação pós-queimadura, sugerindo que a idade, isoladamente, pode não ser um preditor consistente do desfecho percebido pelos pacientes.
De forma geral, os modelos de regressão explicaram de 24% a 45% da variância nos domínios da BSHS-B-Br, com destaque para sensibilidade ao calor (R²=45%) e o escore global (R²=42%). Esses valores são comparáveis aos relatados em estudos prévios, reforçando a relevância das variáveis incluídas, como sexo, tempo de internação, profundidade da lesão, limitação funcional e etiologia10-16.
Tais achados confirmam que a reabilitação precoce e contínua é decisiva para reduzir o impacto físico, psicológico e social da queimadura, corroborando o que já foi apontado por estudos internacionais recentes10-16.
Os resultados reforçam a concepção de que o cuidado às vítimas de queimaduras deve ultrapassar o foco na sobrevivência, englobando estratégias voltadas à redução de cicatrizes, controle da dor, recuperação funcional e bem-estar psicossocial, enfatizando a natureza sistêmica e multidimensional das queimaduras e a necessidade de uma abordagem reabilitadora prolongada e interdisciplinar14,17-20.
Como limitações, destacam-se o tamanho reduzido da amostra, a realização do estudo em um único centro de referência e o delineamento transversal, que impossibilita estabelecer relações causais. Recomenda-se que futuros estudos multicêntricos utilizem amostras maiores e realizem acompanhamento longitudinal, visando aprofundar o entendimento sobre o impacto da Fisioterapia e de intervenções multiprofissionais na reabilitação das vítimas de queimaduras.
CONCLUSÕES
Os achados deste estudo evidenciam que vítimas de queimaduras apresentam comprometimento significativo da qualidade de vida, especialmente nos domínios de sensibilidade ao calor, imagem corporal e desempenho ocupacional, com maior impacto entre mulheres e em casos de maior extensão e profundidade das lesões. O acometimento das mãos e as limitações no retorno às atividades laborais configuram fatores determinantes para a recuperação funcional. A BSHS-B-Br demonstrou eficácia na identificação das dimensões mais afetadas, reforçando a importância da Fisioterapia no processo de reabilitação, com atuação contínua na prevenção de sequelas, recuperação da funcionalidade e promoção da reintegração social e laboral, contribuindo para a melhoria global da qualidade de vida.
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Recebido em
26 de Janeiro de 2026.
Aceito em
20 de Abril de 2026.
Local de realização do trabalho: Hospital João XXIII, Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), Belo Horizonte, MG, Brasil.
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.