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Artigo de Revisao

Mapeamento das evidências sobre o uso do polihexametileno biguanida (PHMB) no manejo da carga bacteriana e no processo de cicatrização de queimaduras: Revisão de escopo

Evidence mapping on the use of polyhexamethylene biguanide (PHMB) in bacterial load management and the burn healing process: A scoping review

Dulce Janaína Morais1; Meline Rosseto Kron1; André Oliveira Paggiaro2; Viviane Fernandes de Carvalho1

DOI: 10.5935/2595-170X.20260015

RESUMO

OBJETIVO: Mapear a evidência clínica em humanos sobre o uso de polihexanida (PHMB), isolada ou combinada, no tratamento de queimaduras, com ênfase em desfechos de cicatrização e controle microbiano/biofilme.
MÉTODO: Revisão de escopo baseada em oito estudos clínicos em queimaduras humanas, incluindo ensaios clínicos randomizados, estudos observacionais (prospectivos/retrospectivos) e um relato de caso. Foram extraídos dados sobre população, classificação das queimaduras, forma de aplicação do PHMB (veículo/concentração/regime), desfechos e principais achados.
RESULTADOS: Em queimaduras de espessura parcial, dois ensaios randomizados mostraram tempos de cicatrização semelhantes entre intervenções com PHMB (gel PHMB/betaína ou curativo de biocelulose com PHMB) e sulfadiazina de prata, com benefícios em dor e/ou menor frequência de trocas e custos em um dos estudos. No controle microbiano, os resultados basearam-se sobretudo em culturas de swab e infecção clínica; um ensaio não encontrou diferença na colonização, enquanto um estudo comparativo retrospectivo observou menor positividade para Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus com hidrogel de PHMB versus alginato. Em pediatria, os tempos de reepitelização foram geralmente curtos em queimaduras superficiais, aumentando conforme a profundidade. Em queimaduras profundas enxertadas, um estudo não comparativo reportou reepitelização rápida do enxerto e ausência de infecção.
CONCLUSÕES: O PHMB mostrou-se viável e bem tolerado, com cicatrização semelhante aos comparadores e possíveis vantagens em conforto e indicadores microbiológicos. Contudo, nenhum estudo mensurou biofilme diretamente, limitando inferências sobre ação antibiofilme.

Palavras-chave: Queimaduras. Biguanidas. Cicatrização. Infecção dos Ferimentos. Anti-Infecciosos Locais.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To map the human clinical evidence on polyhexanide (PHMB), alone or combined, for burn wound management, focusing on healing outcomes and microbial/biofilm control.
METHODS: A scoping review of eight human burn studies, including randomized controlled trials, observational studies (prospective/retrospective), and one case report. Data were extracted on population, burn classification, PHMB application (vehicle/concentration/regimen), outcomes, and key findings.
RESULTS: In partial-thickness burns, two randomized trials reported comparable healing times between PHMB-based interventions (PHMB/betaine gel or a PHMB-containing bio-cellulose dressing) and silver sulfadiazine, with improvements in pain and/or fewer dressing changes and lower costs in one trial. Microbial outcomes relied mainly on surface swabs and clinical infection; one trial found no difference in colonization, whereas a retrospective comparative study reported fewer positive cultures for Pseudomonas aeruginosa and Staphylococcus aureus with a PHMB hydrogel versus an alginate-based dressing. In pediatric cohorts, time to re-epithelialization was generally short for superficial partial-thickness burns and increased with burn depth. In grafted deep/full-thickness burns, a noncomparative study reported rapid graft re-epithelialization and no wound infections.
CONCLUSIONS: PHMB appears feasible and well tolerated in human burns, with healing broadly comparable to standard comparators and potential advantages in comfort and selected microbiological proxies. However, no included study directly quantified biofilm, precluding definitive conclusions regarding anti-biofilm efficacy.

Keywords: Burns. Biguanides. Wound Healing. Wound Infection. Anti-Infective Agents, Local.

INTRODUÇÃO


Lesões causadas por queimaduras representam um complexo problema de saúde pública em nível global. O controle de infecções e o reparo ideal dos tecidos comprometidos são encarados, fundamentalmente, como desafios na gestão do cuidado destes pacientes1.


A seleção de agentes antimicrobianos (ATM) tópicos apropriados é pedra angular para a prevenção de infecções, adequado preparo do leito da ferida e alcance da reepitelização em tempo hábil, minimizando complicações e desdobramentos indesejáveis. O emprego de agentes ATM tradicionais, como a sulfadiazina de prata, tem sido o padrão de cuidado por décadas, no entanto, preocupações em relação à citotoxicidade, cicatrização tardia e resistência por parte dos microrganismos têm impulsionado a busca por terapêutica alternativa2.


O polihexametileno biguanida (PHMB) surgiu como um agente antimicrobiano promissor com atividade de amplo espectro contra bactérias, fungos e certos vírus. O PHMB é um polímero sintético composto por grupos biguanida repetidos e conectados por cadeias de hexametileno, conferindo propriedades químicas específicas, entre elas, a capacidade de penetrar e romper biofilmes bacterianos, que são particularmente problemáticos em feridas por queimaduras. Os biofilmes consistem em comunidades bacterianas incorporadas em substâncias poliméricas extracelulares que protegem as bactérias de agentes antimicrobianos e à resposta imunológica do hospedeiro3.


Uma vantagem crítica do PHMB em relação aos antissépticos tradicionais é seu perfil favorável de citotoxicidade. Enquanto outros agentes demonstraram ser tóxicos para queratinócitos e fibroblastos, o PHMB mostra-se menos tóxico às células de mamíferos em concentrações terapêuticas3. Essa atividade antimicrobiana seletiva permite que o PHMB elimine patógenos, enquanto preserva o tecido viável e apoia o processo de reepitelização da ferida4.


Embora as propriedades biológicas do PHMB sejam bem descritas5,6, a transposição desses achados para a prática clínica exige uma síntese rigorosa que exclua modelos experimentais e foque na resposta terapêutica em seres humanos. Justifica-se, portanto, este estudo para identificar como o uso clínico desse polímero tem impactado o manejo de pacientes queimados. Assim, esta revisão de escopo objetiva mapear a aplicação do PHMB no tratamento de feridas por queimaduras, em todas as faixas etárias e cenários de cuidado, buscando responder à seguinte pergunta de pesquisa: "Quais são as evidências científicas sobre a aplicação clínica do PHMB no tratamento de feridas por queimaduras, especificamente no que tange ao controle de biofilme e à promoção da cicatrização tecidual?"


MÉTODO


Esta revisão de escopo foi conduzida seguindo a metodologia proposta pelo Instituto Joanna Briggs (JBI) para síntese de evidências, que exige um método rigoroso e transparente para explorar a amplitude e profundidade da literatura em campos complexos ou emergentes7. O protocolo da revisão foi desenvolvido prospectivamente e orientado pelo framework População, Conceito e Contexto (PCC), garantindo cobertura abrangente de estudos que abordam a relação entre o PHMB e ação contra o biofilme bacteriano e o progresso da resolução da ferida causada por queimadura.


Critérios de Elegibilidade


Os estudos foram incluídos se atendiam aos seguintes critérios:



• População: Pacientes de qualquer faixa etária (neonatos, crianças, adultos e idosos) com feridas decorrentes de queimaduras;


• Conceito: Uso clínico do Polihexametileno Biguanida (PHMB) para controle de biofilme e promoção da cicatrização;


• Contexto: Qualquer cenário de assistência à saúde (atendimento pré-hospitalar, unidades de queimados, hospitais gerais, ambulatórios ou domiciliar).



Critérios de Inclusão



• Tipo de Estudo: Estudos clínicos (ensaios clínicos randomizados e não randomizados), estudos observacionais (coorte, caso-controle, transversais), relatos de caso e séries de casos.


• Participantes: Seres humanos com queimaduras de qualquer profundidade (2º ou 3º grau) ou extensão.


• Intervenção: Uso do PHMB em qualquer apresentação (gel, solução, gaze impregnada) como agente principal ou coadjuvante.


• Desfechos (Outcomes): Estudos que relatem dados sobre a taxa de cicatrização (reepitelização, tempo de fechamento) e/ou presença/redução de carga microbiana e biofilme.


• Idiomas: Português, Inglês e Espanhol.



Critérios de Exclusão



• Modelos Não Clínicos: Pesquisas realizadas em modelos animais (ratos, porcos, etc.) ou experimentos puramente in vitro (culturas de células).


• População Irrelevante: Estudos sobre feridas crônicas não relacionadas às queimaduras, nos quais o perfil de queimadura não esteja isolado.


• Intervenção Inespecífica: Estudos que mencionam antissépticos de forma genérica, sem especificar o uso ou os resultados diretos do PHMB.


• Tipos de Documentos: Editoriais, cartas ao editor, resumos de congressos sem texto completo disponível ou revisões de literatura (embora estas possam servir para busca reversa).



Pesquisa estruturada e abrangente foi realizada uma nas bases PubMed (MEDLINE), Embase, CINAHL, LILACS, Google Scholar e literatura cinzenta, sem limite inferior de data e incluindo estudos publicados até janeiro de 2026. A inclusão foi restrita a publicações em inglês, português ou espanhol, considerando as competências linguísticas da equipe de revisão e o caráter internacional do tema.


A estratégia de pesquisa foi construída utilizando vocabulário controlado e termos livres relacionados às feridas por queimaduras e PHMB. A estratégia final para o PubMed incluiu combinações de: ("Burns"[Mesh] OR "Burn"[Title/Abstract] OR "Burn Injury"[Title/Abstract]) AND ("Polyhexamethylene Biguanide"[Title/Abstract] OR "PHMB"[Title/Abstract] OR "Polihexanide"[Title/Abstract] OR "Biguanides"[Mesh]) AND ("Wound Healing"[Mesh] OR "Biofilms"[Mesh] OR "Cicatrization"[Title/Abstract] OR "Biofilm Control"[Title/Abstract] OR "Re-epithelialization"[Title/Abstract]). Cada estratégia de pesquisa foi adaptada ao Thesaurus do Embase e aos Subject Headings das outras bases de dados acessadas.


Todas as citações recuperadas foram importadas para o Mendeley® (Elsevier, Amsterdam) para eliminação de estudos em duplicatas e, em seguida, transferidas para o Rayyan® (Qatar Computing Research Institute) para triagem cega8. Os títulos e resumos foram analisados independentemente por três revisores (DJM, VFC e MRK), seguidos da avaliação do texto completo dos estudos que cumpriam os critérios de inclusão ou geravam dúvidas. As discrepâncias foram resolvidas consultando um terceiro revisor (AOP). O processo de seleção seguiu as diretrizes PRISMA-ScR9.


A extração dos dados foi realizada por meio de um formulário de mapeamento padronizado, desenvolvido e testado pela equipe de pesquisa com base nas recomendações do Joanna Briggs Institute (JBI). As informações extraídas incluíram dados básicos (autor, ano, periódico, país), características do estudo (delineamento, métodos, população, tipo de queimadura, intervenção, comparador, desfechos primários e principais achados).


A fim de aprimorar a síntese e fornecer uma visão abrangente do estado da arte sobre a aplicação clínica do polihexametileno biguanida (PHMB) no tratamento de feridas por queimaduras, a análise dos dados foi além da tabela de extração padrão do JBI. O framework PAGER foi empregado para mapear e analisar os achados de forma sistemática. Os resultados foram sintetizados utilizando a estrutura PAGER, sumarizando: (a) padrões recorrentes entre os estudos; (b) avanços metodológicos e clínicos na aplicação do PHMB; (c) lacunas críticas de evidência; (d) a robustez e a natureza geral da base de evidências; e (e) diretrizes para pesquisas futuras. Esta síntese fornece visão crítica e estruturada do potencial terapêutico, bem como das limitações atuais do PHMB no controle do biofilme e na cicatrização de queimaduras em humanos.


RESULTADOS


Características dos estudos


Um total de 1025 registros foram identificados na busca inicial, como mostra a Figura 1. A remoção de duplicatas resultou em um total de 552 registros, dos quais 514 foram excluídos após a triagem de títulos e resumos. De 38 artigos completos, outros 17 foram retirados devido incoerência dos critérios PCC. Um total de 8 estudos incluídos nesta revisão podem ser vistos na Tabela 1 e na Figura 2, quanto aos seus dados bibliométricos.





Os estudos incluídos variaram em seu desenho, entre eles dois ensaios clínicos randomizados controlados (ECR), cinco coortes (três prospectivas e duas retrospectivas) e um relato de caso. Os tamanhos das amostras variaram de 1 a 198 participantes, totalizando 457 indivíduos com queimaduras. As medidas de desfecho incluíram tempo de cicatrização (reepitelização), escores de dor, eficácia antibacteriana, segurança, tolerabilidade e custos. Uma descrição detalhada das características de cada estudo pode ser encontrada na Tabela 2.



População e tipo de queimadura


Nos oito estudos, a população identificada é heterogênea, composta por adultos e crianças, atendidos principalmente em centros especializados em queimaduras. Em termos de perfil etário, há três grupos: (1) adultos com queimaduras agudas tratados de forma conservadora9-11,14,15, (2) adultos com queimaduras mais graves submetidos à enxertia12 e (3) pediatria13,16. Quanto à etiologia, quando descrita, predominam causas típicas da prática clínica, escaldadura e contato, além de um cenário específico de eletrocussão em adulto.


A classificação das queimaduras nos estudos se concentra na profundidade, com predominância de espessura parcial (2º grau), mas com presença de extremos. Uma parte importante da evidência aborda queimaduras parciais dérmicas (espessura parcial superficial e/ou dérmica) tratadas com PHMB em gel/curativo, frequentemente comparadas à sulfadiazina de prata (SSD)10,11. Em paralelo, há estudos que incluem queimaduras parciais profundas e de espessura total (3º grau), especialmente nos cenários em que o PHMB é utilizado como parte do cuidado de feridas enxertadas com enxerto de pele parcial, onde a classificação se torna também funcional (cicatrização do enxerto/pega do enxerto + reepitelização)12. Em um estudo retrospectivo, a caracterização da profundidade é complementada por imagem (Laser Doppler Imaging), reforçando a tentativa de estratificar risco de cicatrização e comparar abordagens14.


Em termos de extensão da superfície corporal queimada, a literatura avaliada mostra essa variável como um fator relevante, todavia, com grande amplitude, desde queimaduras acometendo áreas ≤ 10%10 até 28%8.


Aplicação clínica


A Figura 3 ilustra a variação das concentrações e as estratégias de manejo clínico adotadas nos estudos:



A análise dos estudos revela uma padronização significativa no uso do PHMB, mas com variações importantes dependendo da tecnologia do curativo e do objetivo terapêutico. A maioria dos estudos contemporâneos14-16 utiliza a concentração de 0,1% de PHMB, geralmente associada a 0,1% de Undecilenamidopropil Betaína. Esta combinação vem sendo aplicada para o preparo do leito da ferida, visando o equilíbrio entre eficácia antimicrobiana e preservação tecidual. O estudo pioneiro de Daeschlein et al.8 utilizou uma concentração menor (0,02% em solução), focando na comprovação de que o agente não era citotóxico para os queratinócitos em humanos. Enquanto Piatkowski et al.10 valeram-se da concentração de 0,3% incorporada em um curativo de biocelulose, a fim de garantir liberação prolongada do PHMB para o controle da dor e da carga microbiana.


As apresentações em fora de gel/hidrogel são prevalentes para o tratamento de queimaduras de 2º grau profundo e preparo para enxertia. O gel garante a manutenção da umidade e permite que o PHMB penetre na matriz do biofilme de forma contínua11-16. A solução de PHMB foi empregada para a limpeza inicial e remoção mecânica de detritos e exsudato8. A apresentação sofisticada de PHMB inserido à estrutura do curativo, com liberação gradual para o leito da ferida, demonstrou resultado promissor no manejo da dor10.


Trocas realizadas entre 48h a 72h foram adotadas em um dos ensaios clínicos randomizados10. Este intervalo permite que o PHMB atue sem a interrupção constante da temperatura e da biologia da ferida. Observou-se que as trocas diárias se deram no cuidado com feridas com alto volume de exsudato e cuja meta era controle da presença bacteriana11,15. Em pediatria, observou-se uma tendência a manter o curativo por mais tempo (até 3 dias) para minimizar o trauma da troca em crianças13,16.


Desfechos e pontos-chave mapeados


Cicatrização / reepitelização


Em relação à cicatrização, dois ensaios randomizados em queimaduras de espessura parcial mostraram tempo de reepitelização semelhante entre intervenções com polihexanida (PHMB) e sulfadiazina de prata. No ECR tailandês, o tempo médio de cicatrização foi comparável entre gel de PHMB/betaína e SSD (17,8±2,2 vs. 18,8±2,1 dias, p=0,13, respectivamente), com todas as lesões cicatrizando em até três semanas11. De modo semelhante, no ECR com curativo de biocelulose contendo PHMB, a mediana de tempo para cicatrização completa foi de 10 dias, sem diferença estatisticamente significativa comparado ao grupo SSD10.


Em um cenário de maior gravidade, um estudo não comparativo com queimaduras profundas submetidas à enxertia, observou-se reepitelização rápida do leito receptor (mediana de 7 dias) e evolução favorável sem infecção12. Na pediatria, estudos retrospectivos mostraram tempo de reepitelização/tempo de cicatrização em torno de 9-14 dias, variando com a profundidade/gravidade. Para Lőrincz et al.16, que focaram em queimaduras superficiais de espessura parcial, o tempo médio de reepitelização foi inferior a 10 dias, enquanto a revisão retrospectiva multicêntrica relatou tempos crescentes conforme a profundidade, aproximadamente 11,5 dias para queimaduras com extensão menor a 5% até 5 dias para 19% de superfície corporal queimada13.


Controle microbiano


A evidência obtida, a partir desta revisão, quanto ao controle microbiano, utiliza majoritariamente proxies (cultura de swab, colonização e infecção clínica), com ausência de mensuração direta de biofilme. Os dados extraídos do ECR tailandês em queimaduras parciais a respeito da colonização bacteriana, avaliada por coleta de swab, foi semelhante entre PHMB/betaína e SSD, sem infecções em ambos os grupos11. Em contrapartida, o estudo comparativo retrospectivo com hidrogel de PHMB apontou menor ocorrência de swab positivo para Pseudomonas aeruginosa com PHMB/betaína (por paciente: 5/29 vs. 13/31; p=0,037) e para Staphylococcus aureus (por paciente: 12/29 vs. 21/31; p=0,040), ao ser comparado ao curativo à base de alginato de cálcio14.


Na revisão dos dados oriundos de crianças, a taxa de sinais clínicos de infecção durante o tratamento com PHMB foi de 7,6% (11 pacientes), sendo o Staphylococcus aureus o patógeno mais frequentemente identificado13. Um relato de caso de queimadura por eletrocussão descreveu negativação de culturas após mudança de SSD para solução/gel com PHMB/betaína e epitelização completa em 15 dias15.


Por meio da análise histológica e clínica, Daeschlein et al.8 comprovaram que, ao contrário do iodo e do nitrato prata, o PHMB não causa necrose tecidual profunda nem impede a regeneração celular. Em termos de segurança, não foram identificados sinais consistentes de comprometimento de cicatrização atribuível ao PHMB, assim como, eventos adversos relatados foram locais e leves12,13.


Outros achados


Os desfechos de dor favoreceram abordagens com PHMB em diferentes contextos. Ao avaliar a dor durante as trocas de curativos em queimaduras de espessura parcial, o grupo PHMB/betaína, em comparação ao SSD, obteve menor score na Escala Visual Analógica (EVA)11. No ECR, em que foi empregado o curativo de biocelulose associado ao PHMB, houve menos queixas álgicas (p=0,01) e menor necessidade de trocas, sugerindo conforto e praticidade10. Em queimaduras profundas enxertadas, Kiefer et al.12 descreveram redução de dor ao longo do pós-operatório com uso do gel contendo PHMB/betaína.


Os estudos sugerem que intervenções com PHMB podem reduzir carga assistencial em alguns cenários. No ECR alemão com biocelulose + PHMB vs. SSD, o grupo intervenção demandou menos trocas do que o grupo controle e apresentou menor custo estimado do tratamento, com economia estimada de €95,20 em 10 dias, apesar de tempo de cicatrização semelhante10.


Com o intuito de sintetizar os resultados obtidos nesta revisão, foi desenvolvido um resumo gráfico (Figura 4), acerca dos desfechos clínicos cicatrização/reepitelização e controle bacteriano, de acordo com a estratégia PCC.



DISCUSSÃO


A presente revisão de escopo incluiu oito investigações, envolvendo queimaduras em humanos, com desenhos de pesquisa heterogêneos. Como desenho de pesquisa mais robusto, dois ensaios clínicos randomizados compararam PHMB à sulfadiazina de prata em queimaduras de espessura parcial10,11, um estudo retrospectivo avaliou o desempenho de um hidrogel com polihexanida versus alginato de cálcio14, duas coortes retrospectivas em pediatria13,16, uma série de casos em queimaduras de espessura total com necessidade de enxertia12, uma análise histológica para avaliação de viabilidade/aplicabilidade clínica em queimaduras de segundo grau8 e a experiência com queimadura elétrica em um adulto, relatada no Sri Lanka15.


A análise das evidências obtidas foi estruturada a partir do acrônimo PAGER (Patterns, Advances, Gaps, Evidence for practice e Research recommendations). Esta ferramenta metodológica permite organizar os achados clínicos sobre o uso do PHMB em queimaduras, facilitando a identificação de padrões de cuidado, avanços tecnológicos e lacunas que ainda persistem na literatura científica.


Os padrões de intervenção identificados revelam predominância no uso da combinação de PHMB 0,1% e Betaína 0,1% para manejo de queimaduras de espessura parcial11,12. Observou-se que a apresentação em hidrogel é a escolha preferencial para o tratamento tópico, visando a manutenção do ambiente úmido, enquanto a solução é reservada para irrigação e limpeza inicial do leito da ferida15,16.


Por meio das informações trazidas pelos pesquisadores, há consenso consolidado de segurança para o uso em pediatria, com estudos demonstrando tolerabilidade em crianças menores de 4 anos13. Adicionalmente, identificou-se a tendência de substituição da SSD pelo PHMB para evitar a formação de pseudoescara e permitir a avaliação visual direta do leito da ferida10,11.


É preciso salientar que os estudos incluídos nesta revisão de escopo mostraram uniformidade clínica quanto à utilização do PHMB em queimaduras de espessura parcial9-11,13,16 e, em menor número, em cenários complexos, como nos pacientes com queimaduras de espessura total12,14,15. Todavia, a heterogeneidade se faz presente em relação à superfície corporal queimada e à necessidade de procedimentos cirúrgicos, o que influencia fortemente desfechos de tempo de cicatrização/reepitelização e risco de infecção9,12,13.


O principal avanço clínico sinalizado pelos estudos é que, ao ser comparado às abordagens clássicas, especialmente à sulfadiazina de prata, o PHMB tende a oferecer benefícios centrados no cuidado, como experiência satisfatória do paciente e redução de custo, sem penalizar a cicatrização. Nos dois ensaios randomizados, o tempo de cicatrização foi semelhante entre PHMB e sulfadiazina, mas houve vantagem do PHMB referente à algesia durante o manejo das queimaduras e menor frequência de trocas no ensaio com biocelulose + PHMB (a cada 2-3 dias vs. diariamente), com repercussão no custo total10,11. Os dados observacionais reforçam o conceito que o PHMB pode permitir reepitelização rápida, com reduzida necessidade de procedimentos dolorosos e tratamento ambulatorial, conferindo potencial avanço em termos de conforto e adesão13,16.


No eixo microbiológico, há incremento particularmente pertinente a um dos objetivos desta RE relacionado à carga bacteriana presente em feridas causadas por queimaduras. O estudo de De Decker et al.14 traz à luz a redução da incidência de culturas positivas para Pseudomonas aeruginosa, a partir de um hidrogel com polihexanida em comparação com alginato de cálcio. Outrossim, o estudo de Daeschlein et al.8 contribui com o entendimento da interação entre o PHMB e o revestimento cutâneo. A polihexanida 0,04% foi associada à qualidade superior de reepitelização e aparência histológica do leito, sem formação de crosta, geralmente observada com nitrato de prata, sugerindo compatibilidade tecidual em um contexto em que citotoxicidade e inibição da reepitelização são preocupações reais.


Ponto crítico emerge ao confrontar o discurso comercial com a evidência clínica disponível. Produtos à base de PHMB, especialmente formulações associadas à betaína, são frequentemente promovidos como agentes antibiofilme, os quais reduzem a carga microbiana por ação combinada de antisséptico e tensoativo, sugerindo impacto direto na organização do biofilme. No entanto, nos estudos clínicos em queimaduras incluídos nesta revisão de escopo, essa alegação não é confirmada por medidas diretas de biofilme, como microscopia, quantificação de matriz extracelular ou marcadores moleculares.


Os eventos microbiológicos reportados baseiam-se em desfechos substitutos, como positividade de swab/cultura e sinais clínicos de infecção. Avaliações simplistas levam a achados que variam de ausência de diferença entre PHMB e sulfadiazina de prata em colonização11 à redução de culturas positivas para patógenos-chave em comparação com curativo à base de alginato de cálcio14, sem que isso permita inferir, com rigor, efeito antibiofilme específico. Assim, permanece lacuna relevante entre a promessa de ação sobre biofilmes e o que a literatura clínica em queimaduras efetivamente demonstra com métodos apropriados.


Apesar dos desfechos positivos, esta revisão de escopo identificou carências importantes que limitam a generalização dos resultados. Primeiramente, observa-se uma escassez de ECRs multicêntricos de larga escala que comparem o PHMB diretamente com outras tecnologias de ponta, como os curativos de prata por transferência de contato ou hidrofibras. Existe também uma falta de padronização rigorosa quanto ao tempo de contato ideal da solução de PHMB no leito da queimadura antes da aplicação da cobertura secundária, variando amplamente entre os protocolos institucionais15.


O corpo de evidência em humanos é frágil, porém clinicamente informativo. Os ECRs indicam que o PHMB mostra não inferioridade, em tempo de cicatrização, frente à SSD em queimaduras de espessura parcial, com eficiência no controle álgico e logística de trocas. O estudo de Wattanaploy et al.11 (46 adultos) mostra tempos médios semelhantes e igual taxa de cultura positiva, sugerindo equivalência microbiológica por esse substituto, mas com diferença nos escores de dor durante a troca de curativo. O ensaio de Piatkowski et al.10 (60 pacientes) reforça equivalência de cicatrização, com menor frequência de trocas e custo no braço PHMB.


As evidências mapeadas sugerem transição para o uso do PHMB como uma prática segura em dois outros aspectos. No preparo do leito, a aplicação de PHMB em gel e solução apresentou taxas de integração de enxerto entre 95,5% e 100%, comprovando ser uma tecnologia eficaz para garantir um leito receptor descontaminado e viável12,14. Para a população pediátrica, os dados inferem que o PHMB é tolerável para crianças e lactentes, com incidência mínima de eventos adversos locais e ausência de toxicidade sistêmica, o que o posiciona como o antisséptico de escolha para o manejo da carga bacteriana em populações vulneráveis13,16.


Com base nas evidências mapeadas, recomenda-se a realização de estudos longitudinais que avaliem o impacto do uso do PHMB na investigação rigorosa da carga bacteriana. Sugere-se o desenvolvimento de pesquisas com recursos de imagem, voltados à identificação do biofilme. Do mesmo modo, a associação de ensaios de biologia molecular in vivo, para monitorar a velocidade de degradação da matriz polimérica extracelular, sob o efeito do PHMB em diferentes concentrações, serão essenciais para consolidação do conceito antibiofilme.


Adicionalmente, em futuros ensaios clínicos randomizados exista a construção de protocolos de aplicação, com objetivo de padronizar concentração/veículo, tempo de contato, frequência de troca e uso concomitante de curativos secundários, assim como a homogeneidade da população avaliada, com estratificação por profundidade e extensão da área acometida. Análises de custo-efetividade que considerem não apenas o preço unitário do produto, mas a redução do tempo de hospitalização e do uso de antibióticos sistêmicos.


A despeito das evidências mapeadas, esta revisão apresenta limitações inerentes à variabilidade metodológica dos estudos incluídos, especialmente no que se refere às concentrações de PHMB e aos tempos de exposição díspares nas lesões térmicas. Além disso, a predominância de estudos observacionais em detrimento aos ECRs restringe a generalização dos achados quanto à superioridade do PHMB frente a outros antissépticos em queimaduras.


CONCLUSÕES


De acordo com os oito estudos clínicos incluídos, a aplicação de PHMB em queimaduras humanas é descrita principalmente em queimaduras de espessura parcial (adultos e pediatria) e em contextos específicos de maior e menor complexidade, mostrando cicatrização semelhante aos comparadores clássicos e um perfil de boa tolerabilidade, com sinal de benefício em dor e menor frequência de trocas em alguns cenários.


Quanto ao controle microbiano, há resultados favoráveis em desfechos substitutos (redução de culturas positivas para patógenos relevantes), porém não há mensuração direta de biofilme, o que impede concluir eficácia antibiofilme em queimaduras.


Portanto, a revisão de escopo conclui que o PHMB se mostrou uma opção terapêutica promissora e com perfil de tolerabilidade aceitável no manejo tópico de queimaduras, com potencial vantagem em conforto e alguns indicadores microbiológicos, contudo, necessita de validação em estudos randomizados, controlados e multicêntricos, nos quais protocolos padronizados e métodos específicos de avaliação de biofilme poderão confirmar se há impacto nesse desfecho e definir subgrupos que mais se beneficiam.


REFERÊNCIAS


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Recebido em 16 de Fevereiro de 2026.
Aceito em 26 de Fevereiro de 2026.

Local de realização do trabalho: Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência, Ananindeua, PA, Brasil.

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.


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