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Relato de Caso

Evolução clínica de queimadura de terceiro grau em mão submetida à enxertia e fotobiomodulação: Relato de caso

Clinical evolution of third-degree burns on the hand subjected to grafting and photobio-modulation: Case report

Amanda Stéfani Balzan Oliveira1; Alexsandra Martins da Silva2; Maria Elena Echevarría-Guanilo2; Aline Massaroli2; Diogo Gasparetto1; Marcelo Leidemer Mattioni3

DOI: 10.5935/2595-170X.20260016

RESUMO

OBJETIVO: Relatar um caso de queimadura de terceiro grau em mão submetida a cuidado multidisciplinar com enxertia e fotobiomodulação, em uma rede de atenção à saúde de um município do oeste catarinense.
MÉTODO: Homem, 21 anos, vítima de queimadura em mão esquerda com máquina tipográfica apresentando 10x08cm² de lesão. Acompanhado em um ambulatório multidisciplinar de feridas, com realização de desbridamento cirúrgico e enxertia no hospital. No ambulatório recebeu terapia de fotobiomodulação, com aparelho Therapy EC, sendo aplicado 1J luz Vermelha + 1J luz Infravermelha nas bordas e lesão, e curativo com rayon umedecido com ácidos graxos essenciais e malha tubular. Durante o período de acompanhamento, a equipe multiprofissional foi composta por médico cirurgião geral, cirurgião plástico, enfermeira estomaterapeuta e fisioterapeuta.
RESULTADOS: Paciente foi acompanhado durante 42 dias, apresentando diminuição gradativa das áreas de lesão e maior extensão de tecido vascularizado, com excelente progressão do processo de cicatrização. No momento da alta apresentava cicatrização completa da lesão, com pequena restrição de movimento em segundo e terceiro quirodáctilos, sendo orientado a dar continuidade às sessões de fisioterapia visando ganho de funcionalidade do membro.
CONCLUSÕES: O atendimento contínuo e integrado ao paciente foi fundamental para sua reabilitação completa, com foco não apenas na cicatrização da ferida, mas na qualidade de vida, possibilitando sua recuperação funcional.

Palavras-chave: Reabilitação. Cicatrização. Terapia a Laser. Terapia com Luz de Baixa Intensidade. Queimaduras.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To report a case of a third-degree hand burn managed with multidisciplinary care, including grafting and photobiomodulation, within a healthcare network in a municipality in western Santa Catarina, Brazil.
METHODS: A 21-year-old male sustained a burn injury to the left hand caused by a typesetting machine, presenting a lesion measuring 10×8cm². He was followed at a multidisciplinary wound care outpatient clinic, where surgical debridement and skin grafting were performed in the hospital. In the outpatient setting, he received photobiomodulation therapy using the Therapy EC device, with the application of 1J red light + 1J infrared light to the wound edges and lesion. The dressing consisted of rayon moistened with essential fatty acids and tubular mesh. During the follow-up period, the multidisciplinary team included a general surgeon, a plastic surgeon, a stomatherapist nurse, and a physiotherapist.
RESULTS: The patient was followed for 42 days, showing a gradual reduction in the lesion area and a greater extension of vascularized tissue, with excellent progression of the healing process. At discharge, the lesion showed complete healing, with mild restriction of movement in the second and third digits. The patient was advised to continue physiotherapy sessions to improve functional recovery of the limb.
CONCLUSIONS: Continuous and integrated patient care was fundamental for complete rehabilitation, focusing not only on wound healing but also on quality of life, enabling functional recovery.

Keywords: Rehabilitation. Wound Healing. Laser Therapy. Low-Level Light Therapy. Burns.

INTRODUÇÃO


As queimaduras representam um importante problema de saúde pública devido à sua elevada incidência, potencial gravidade e repercussões clínicas, funcionais e socioeconômicas associadas. No Brasil, estima-se a ocorrência de 1 milhão de casos de queimaduras por ano; entretanto, esse número é subestimado, devido à baixa procura por atendimento médico em casos de menor gravidade. Segundo a Sociedade Brasileira de Queimaduras, 200.000 pacientes procuram atendimento de emergência anualmente, sendo que 40.000 necessitam de internação. Os acidentes ocorrem principalmente no ambiente de trabalho, sobretudo, entre homens1.


Do ponto de vista clínico-epidemiológico, a importância das queimaduras de mão ultrapassa sua frequência, uma vez que essas estão associadas a um risco elevado de sequelas funcionais e necessidade de procedimentos cirúrgicos. Um fator relevante no atendimento é a ausência de centros especializados em grande parte das regiões brasileiras2.


As queimaduras são caracterizadas pela destruição da integridade capilar e vascular, com comprometimento cutâneo da área afetada, por morte celular. Com a alteração da integridade da pele, é iniciado o processo de cicatrização, entretanto, nesse tipo de lesão a extensão da perda acaba dificultando a aproximação das bordas, ocorrendo cicatrização por segunda intenção - um processo muito mais lento, com retração cicatricial e alto risco de infecção3. Assim, identificar precocemente o melhor tratamento para cada lesão impacta diretamente na qualidade de vida do paciente.


Para o tratamento de queimaduras de terceiro grau, a abordagem multiprofissional tem se mostrado eficaz, pois viabiliza a associação tratamentos, como desbridamento cirúrgico, enxertia, curativos especializados, fisioterapia e otimização nutricional4. A terapia de fotobiomodulação também se tem mostrado como um excelente tratamento adjuvante, atuando na redução do processo inflamatório e promovendo a regeneração tecidual4.


Frente a este contexto, surgiu o questionamento: Como proceder no tratamento de uma queimadura de terceiro grau em mão, envolvendo o atendimento multiprofissional e associação de diferentes terapias, visando a manutenção da funcionalidade da área afetada e melhor qualidade de vida ao paciente pós-evento?


Portanto, este estudo tem como objetivo relatar um caso de queimadura de terceiro grau em mão submetida a cuidado multidisciplinar com enxertia e fotobiomodulação, em uma rede de atenção à saúde de um município do oeste catarinense.


RELATO DE CASO


Masculino, 21 anos, sem comorbidades prévias, vítima de queimadura em mão esquerda com máquina tipográfica em 12/09/2024. Na data, realizou radiografia do membro, sem alterações. Realizado curativo com sulfadiazina de prata no local e encaminhado para acompanhamento ambulatorial com prescrição de cefalexina, cetoprofeno e codeína.


No dia 13/09/2024, após contato do Centro de Saúde da Família de referência com o ambulatório de lesões de pele do município, que conta com atendimento multidisciplinar (médico-cirurgião geral, enfermeira estomaterapeuta, técnica de enfermagem), deu-se início ao acompanhamento do caso. Foram identificadas queimaduras de terceiro grau no dorso da mão esquerda e de segundo grau profundo em 2º, 3º e 4º dedos (Figura 1), com extensão de 10x08cm. Realizada limpeza com soro fisiológico (SF) 0,9% e gaze, após aplicado polihexametileno biguanida (PHMB) aquoso e desbridamento instrumental. Aplicado creme de barreira nas bordas, papaína 10% em gel na lesão e, como coberturas secundárias, rayon umedecido com SF 0,9%, gaze, atadura e malha tubular nos dedos. Após contato prévio com cirurgião plástico, paciente foi reencaminhamento para o hospital para desbridamento cirúrgico e enxertia, embora o serviço não seja especializado no atendimento a queimados.



Retorna ao ambulatório em 27/9/2024, apresentando aderência de 100% do enxerto e presença de pontos de sutura; e área doadora - coxa esquerda - reepitelizada. Realizada limpeza com SF 0,9% + aplicação de terapia de fotobiomodulação, com aparelho Therapy EC, potência 100mw, 1Joule de led Vermelho + 1Joule de laser Infravermelho nas bordas e lesão. Após, aplicado rayon embebido com ácidos graxos essenciais, gaze e malha tubular (Figura 1).


Em seis dias, retorna apresentando área doadora do enxerto cicatrizada, orientado a dar início a hidratação local. Em mão esquerda, integração de 100% do tecido de enxerto laminar, possibilitando retirada dos pontos. Mantidas as demais condutas, associada a adição de aplicação de hidrogel nas áreas de lesão aberta no dorso da mão. Nova avaliação em seis dias, constatado áreas cicatrizadas de superfície plana, coloração rosa, hidratada, com presença de crostas esparsas. Procedeu-se à limpeza e remoção. Demais condutas mantidas.


Em 16/10/2024, área de enxerto com manutenção de integridade da pele, hidratada, aspecto plano e cicatrização em 90% da extensão total da queimadura. Realizada nova remoção de crostas esparsas, e mantido o uso de hidrogel. Aqui, o paciente já havia iniciado sessões de fisioterapia, visando melhora da capacidade funcional.


No retorno, em 25/10/2024, a área doadora e área receptora (mão esquerda) permaneceram íntegras, hidratadas e de superfície plana. As lesões em quirodáctilos se encontravam cicatrizadas, de superfície irregular e bordas espessas. Presença de restrição de movimento, principalmente na abdução e extensão dos 2º e 3º quirodáctilo da mão esquerda. Destaca-se que nos cinco atendimentos após o desbridamento e enxertia foi aplicada terapia de fotobiomodulação e utilizada malha tubular para fixação do curativo (Figura 2).



Paciente recebeu alta do ambulatório de lesões de pele no dia 43, orientado sobre cuidados com a pele e manutenção das sessões de fisioterapia (Figura 3).



Esse estudo faz parte de uma macropesquisa intitulada "Atenção a pessoas que sofreram queimaduras: desafios da atenção na rede de saúde na perspectiva do usuário", aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (CEPSH-UFSC) sob CAAE: 51541721.0.0000.0121. Respeitaram-se integralmente os princípios éticos estabelecidos na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.


DISCUSSÃO


Após o atendimento inicial e hospitalar da queimadura, é necessário seguimento ambulatorial para avaliação da evolução da ferida e definição de novas intervenções. Sabe-se que nem todas as queimaduras necessitam de intervenção cirúrgica, entretanto, é fundamental reconhecer quando esta é necessária, de modo a intervir precocemente.


Neste contexto é imprescindível que o paciente seja acompanhado por uma rede de assistência à saúde, que conte com equipe multiprofissional com capacidade dialógica para reconhecer a necessidade de intervenção de outro profissional, visando garantir ao paciente a melhor assistência, reduzindo as sequelas e complicações decorrentes do evento sofrido4. No caso em questão, destaca-se a atuação integrada da rede de serviços de saúde ligados ao Sistema Único de Saúde do município, que contou com a conexão de serviços de nível terciário, primário e secundário, transitando o paciente entre hospital, saúde da família e ambulatório multiprofissional de feridas.


Nessa linha, entende-se que o padrão ouro para queimaduras de terceiro grau consideráveis é a excisão da área associada a enxertos de pele, de preferência, autólogos, reduzindo mortalidade e infecção. Vale ressaltar que o enxerto também pode ser feito mais tardiamente, em lesões com tecido de granulação5, como demonstrado em um estudo de 2015, em que paciente vítima de queimadura por álcool realizou ressecção completa de cicatriz e enxerto de matriz dérmica após um ano do acidente, tendo sido evidenciada melhora da dor e recuperação funcional da amplitude de movimento6. Todavia, mesmo com o processo de enxertia, alguns pacientes podem desenvolver sequelas funcionais, principalmente se o procedimento não foi realizado de forma precoce ou em casos de imobilização inadequada; ou cicatriz patológica6. Por esta razão, o desbridamento e enxertia precoce formam parte dos protocolos internacionais de atendimento ao queimado.


O desbridamento, indicado nessas situações, visa remover os tecidos necróticos e outras secreções para limpar a ferida antes do curativo final, de modo a oferecer uma pele saudável para a cobertura escolhida6. Essa técnica auxilia no processo de reparação tecidual, uma vez que ao deixar tecido necrótico na superfície da ferida, a cicatrização é retardada; assim, com a higiene local associada ao desbridamento, promove-se a transição da fase inflamatória para a fase proliferativa7.


Destaca-se também a importância do curativo ideal, com vistas a promover proteção a agentes externos, manter um ambiente úmido no leito da lesão, restauração tecidual e favorecer a cicatrização, minimizando risco de infecções e melhora estética e funcional8. A literatura traz como opções sulfadiazina de prata 1% e 2%, principalmente; colagenase; hidrogel; malha parafinada; membrana porosa de celulose; película de biocelulose; espuma antimicrobiana e silicone suave; ácido hialurônico 0,2%; membrana biológica com creme a base de colágeno; todos eles demonstrando eficácia no tratamento9. Ademais, o curativo também tem sua relevância na fase de pré-tratamento cirúrgico, quando se considera a possibilidade de enxerto, de modo a preservar e proteger a ferida2.


Pensando na recuperação da ferida, no que tange ao reparo tecidual, com aumento da taxa de cicatrização, o uso de laser em baixa intensidade (fotobiomodulação), tem seu destaque, pela ação anti-inflamatória, analgésica e cicatricial3. Isso porque o laser contribui com a reorganização do colágeno, por exemplo, favorecendo o aspecto e qualidade final da cicatrização.


Destaca-se um estudo de 2015, com uma sobrevivente de queimaduras em ambiente fechado, que apresentou sequelas de queimadura nas mãos; a paciente foi tratada com uma sessão de laser érbium fracionado e oito sessões de fotobiomodulação por LED, apresentando ao final do tratamento uma melhora geral da aparência e hidratação da pele afetada10. Já em um estudo de 2021 com queimadura em camundongos, demonstrou-se uma melhora significativa na cicatrização, quando utilizado laser a 70mW/cm2 por 5 min durante nove dias, em comparação ao grupo controle11. Assim, entende-se que a laserterapia precoce auxilia não somente no fechamento das feridas, mas gera cicatrização organizada, com melhora tecidual, reduzindo áreas de retração que podem comprometer a mobilidade do membro afetado3,4.


No que tange à qualidade de vida do paciente e recuperação de danos, a principal consequência da evolução da ferida é o comprometimento funcional, manifestado, por exemplo, por contraturas musculares ou cicatrizes hipertróficas, gerando a diminuição da amplitude de movimento do membro, impactando diretamente em sua funcionalidade e nas atividades motoras finas12, além de fraqueza e perda muscular, afetando com maior predominância áreas de pescoço, mãos, punhos e axilas1. Assim, o fisioterapeuta é o profissional ideal para trabalhar com a prevenção de sequelas, independência funcional e redução da dor13.


Nesse cenário, o acompanhamento contínuo e multidisciplinar é fundamental para a reabilitação do paciente, pelas múltiplas facetas deste tipo de trauma. Pois o cuidado com a vítima de queimaduras engloba processos singulares que visam a melhora dos índices de morbidade e mortalidade, desde a fase aguda até sua total reabilitação, demandando planos estratégicos e adoção de recursos no âmbito do cuidado4,14. Assim, somente com um atendimento integrado consegue-se abarcar todas as áreas comprometidas, desde a física até a nutricional15.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Lesões decorrentes de queimaduras apresentam um desafio no âmbito do cuidado; pois vão além do manejo da urgência médica, uma vez que impactam diretamente na qualidade de vida do paciente, podendo trazer prejuízos e cicatrizes permanentes que podem impactar diretamente na amplitude de movimento e atividades de vida diária do paciente.


A equipe multiprofissional apresenta destaque no processo de assistência a estes pacientes, abrangendo desde o atendimento inicial até as etapas de reabilitação, possibilitando a abordagem das múltiplas necessidades clínicas, funcionais e psicossociais do paciente, favorecendo uma recuperação com o menor número de sequelas relacionadas.


O uso de recursos tecnológicos, como enxertia e laserterapia de baixa potência, também é promissor nesse âmbito. Apesar de serem estudadas há mais de uma década, ainda são necessários novos avanços. Portanto, a descrição de resultados provenientes desta técnica não somente enriquece a literatura, mas também ajuda a promover melhores opções para estes pacientes.


No caso relatado, o município não possui centro de especializado para o atendimento de queimados, porém a integração multiprofissional da rede de atenção à saúde local foi decisiva para que este paciente recebesse uma assistência de qualidade e finalizasse o processo de tratamento com mínimas restrições de movimento, seguindo no processo de reabilitação fisioterápico que o auxiliará na redução das limitações ainda presentes de seus movimentos.


Esta integração, multiprofissional e na rede de atenção à saúde, merece destaque para que outros locais se inspirem e sigam o mesmo movimento em suas cidades, garantindo maior qualidade de assistência e segurança para os pacientes.


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Recebido em 22 de Janeiro de 2025.
Aceito em 20 de Abril de 2026.

Local de realização do trabalho: Universidade Comunitária da Região de Chapecó, Chapecó, SC, Brasil.

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.


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